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Amor Próprio

... porque tudo começa e acaba em mim ...

Amor Próprio

... porque tudo começa e acaba em mim ...

Uma no Cravo outra na Ferradura

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Dona Rosa vivia num constante vai e vem. Casada com o Senhor Caule e mãe de cinco Ervinhas e dois Botões não tinha mãos a medir. Para acrescentar a todas as tarefas que a vida doméstica a sujeitava era Presidente da Associação de Pais da Escola EB+3 do Agrupamento Mais Que Florido e membro fundador, juntamente com a Dona Centáurea, do Clube Dos Jardins Unidos. Senhora da sociedade com forte influência na opinião pública ainda fazia virar uns certos caules sempre que descia, com ar imponente, a famosa Rua dos Flores.

 

Não será, portanto, de estranhar que tenha sido ela a primeira a ligar para todos a informar das novidades e a convocar uma reunião para se resolver a questão. Bom, eu quase que me atrevia a dizer que convocar não foi bem o que aconteceu. O que a Dona Rosa fez foi gritar e esbracejar enquanto dizia que tinham de vir, tinham mesmo de vir.

 

Foi de tal forma que a Margarida, casada com o Crisântemo, na pressa de se despachar perdeu uma quantidade de pétalas, o Girassol irou-se com a Gerbera, o Antúrio perdeu metade da cor e o Lírio bamboleava-se rua acima numa velocidade que ninguém pensou ser possível.

 

Todos especulavam mas ninguém sabia o que passava. Uns diziam que a Dona Rosa ia apresentar a sua candidatura à Presidência enquanto outros afirmavam a pés juntos que aquele encontro era por causa da organização do baile das flores. As vozes começaram a levantar-se e só se fez silêncio quando Dona Rosa, seguida pelo tímido Senhor Caule, entrou na sala.

 

- Meus caros é o drama e o horror é a tragédia da Rua das Flores, começou ela por dizer enquanto as suas pétalas ruborizavam.

 

O burburinho aumentou e o tom colorido do bouquet empalideceu. O que seria assim de tão importante?

 

- A razão pela qual vos convoquei é o Senhor Cravo.

 

- O Senhor Cravo não está – disse, timidamente, uma das ervinhas.

 

- Claro que não está cá - indignou-se a Dona Rosa - Meus senhores o senhor Cravo tem de ser banido da nossa rua.

 

O silêncio foi revelador do espanto que aquelas palavras causaram. Do espanto e do medo. Era mais que sabido que as relações entre a Dona Rosa e o Senhor Cravo nunca mais foram as mesmas quando ele, muito dado a revoluções, a abandonou no altar para ir lutar pelos seus ideais. Mas todos gostavam do Cravo, homem letrado e bonacheirão tinha sempre uma palavra a dizer aos que dela necessitavam. Parecia que adivinhava, costumava dizer a Tulipa, parecia que adivinhava.

 

Depois de muita discussão e de muita hesitação a Dona Rosa lá revelou o porquê de tal decisão. Parece que o cravo se tinha apaixonado por uma ferradura e a trouxera para casa. Ora a Dona Rosa era muito pouco dada á diversidade defendia que as flores só se devem relacionar com as flores. Alem de mais constava que as ferraduras comiam flores e se transformavam em jardineiros cegos durante a noite. Alheios a estas afirmações havia os que afirmavam que tínhamos de ter uma mente mais aberta, que mal tinha o Cravo casar com a Ferradura?

 

Como os meus caros leitores já devem ter percebido foi um burburinho uns a favor do Cravo outros contra á Ferradura. Fizeram-se manifestações coloridas, debates televisivos e escreveram-se rios de tinta enquanto muitas pétalas foram arrancadas. Uns eram contra, outros eram a favor e outros mais indefinidos, iam dando uma no Cravo e outra na Ferradura. Que segundo consta, indiferentes a tudo isto, mudaram-se para o velho palacete onde vivem felizes, esperamos que para sempre.

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