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Amor Próprio

... Blogger, coach, palestrante, autora, contadora de histórias, formadora e uma apaixonada pela vida ...

Amor Próprio

19
Jan15

Folhado de Pato

Marta Leal

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José Ricardo, também conhecido como Folhado de Pato, vivia na velha Rua do Almada, de onde nunca tinha saído. Ali nascera e ali ficara, como fazia questão de afirmar sempre que alguém lhe perguntava onde morava. Nunca aquele homem dormiu uma noite fora de casa, nem mesmo aquando da sua lua-de-mel, por muito que os seus pais tivessem insistido. Contam os que assistiram que as suas palavras foram “daqui não saio daqui ninguém me tira”. Não saíram os noivos, saíram os pais do noivo, para não se sujeitaram aos sons de ruídos e gemidos que estão associados a uma noite de núpcias.

 

Dizem as más-línguas que mais valia terem por lá ficado porque José Ricardo, homem de hábitos e de rotinas, limitou-se a fazer o que fazia sempre aos sábados à noite, assistir à programação da RTP1 até aparecer a mira técnica. Há até quem diga que a Dona Felisberta, sua esposa, só teve direito a aconchego uns bons meses depois de casados. É que, a dada altura, o café para onde ia todas as quartas-feiras fechou, e José Ricardo conseguiu, finalmente, encaixar a suas obrigações de homem numa rotina já por si tão intensa. Consta que a partir desse dia a Dona Felisberta se tornou mais sorridente. Não sei se é verdade mas foi o que me constou.

 

Tinha uma resistência atroz à mudança. Que o digam a Senhora Dona Felismina, sua mãe e, mais tarde, a Senhora Dona Felisberta. Não podia haver qualquer alteração lá por casa que Folhado de Pato a sentia, fosse na figura de um detergente que era usado para lavar a roupa, fosse num novo condimento que alguma das duas se atrevesse a colocar nas refeições, que, como não é estranho perceber, tinham que estar à hora exacta da mesa. Não se limitava a viver na mesma casa desde que nascera. Convém salientar que vivia rodeado dos mesmos objectos, dos mesmos cheiros e dos mesmos sons a que sempre se acostumara.

 

Homem elegante e de um certo galanteio, todos os dias passava na pastelaria que ficava ao lado da repartição de finanças onde era tesoureiro e pedia um folhado de pato, coisa luxuosa para a época. Isto fez com que todos o conhecessem por Folhado de Pato ou Filhado de Pato como dizia a Menina Anita, filha dos patrões, que tinha um problema de dicção. 

 

Ninguém deu por nada nem nunca ninguém sonhou que o que aconteceu pudesse acontecer. Ainda existem, na velha Rua do Almada, pessoas a quem dói o maxilar por, passado tanto tempo, ainda se encontrarem de boca aberta, tal foi o espanto ao saberem do acontecido. A si, meu caro leitor, peço que se sente e que controle o seu maxilar, não lhe vá acontecer o mesmo que aconteceu aos outros.

 

José Ricardo embeiçou-se pela dicção da menina Anita, moça casadoira e com metade da sua idade, pediu transferência para Freixo de Espada a Cinta, e lá foram os dois numa noite de nevoeiro, tal qual D. sebastião, não para salvarem o país mas para se salvarem do tareão a que se podiam sujeitar se o Senhor António, pai da menina Anita, os apanhasse.

 

Felisberta mulher pouco habituada à fogosidade de uma relação, ainda pensou enveredar pelo caminho da fé. Valeu-lhe o encosto do Manuel da Frutaria e o roçar de mão do Etelvino, dono do talho, para perceber que se calhar ainda tinha muito para viver.

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