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Amor Próprio

... Blogger, coach, palestrante, autora, contadora de histórias, formadora e uma apaixonada pela vida ...

Amor Próprio

04
Fev16

É o amor meu caro Arnaldo, é o amor.

Marta Leal

rua.jpg

 

Podia ser uma noite diferente mas é apenas uma noite como tantas outras. Insistimos em fazer das nossas noites, noites iguais a tantas outras. Passamos pelas noites como passamos pela vida completamente indiferentes ao facto de que podemos fazer diferente, podemos sempre fazer diferente.

 

Soam as doze badaladas do relógio da igreja existente no bairro mais próximo. Em dias de lua cheia é fácil vê-lo nitidamente mas hoje o nevoeiro intenso e a chuva fazem-nos olhar para o local e imaginarmos apenas que continua lá. Chove como não chovia há meses. Lá fora ouvem-se passos que param constantemente, com toda a certeza, a desviarem-se das poças formadas pela chuva. É difícil caminhar entre o que um dia foram passeios e hoje é apenas um caminho onde as pedras da calçada foram furiosamente arrancadas, umas pelas intempéries outras por qualquer reacção humana que sem sombras de duvidas qualquer psicólogo explicaria como sendo a reacção natural a quem vive num ambiente onde a palavra de ordem é o ataque porque ninguém ousa esperar para se defender.

 

Ninguém ousa esperar para se defender porque ninguém resistiu á defesa. Consta até que nesta rua sem medo a palavra defesa não existe e é atribuída aos fracos e “mariquinhas”. Lamentavelmente ataca-se o que se deveria defender ou, melhor escrevendo, a melhor defesa é o ataque. Mas deixemos-nos de devaneios e adiante-se a história.

 

A avenida principal encontra-se deserta e o silêncio é apenas interrompido por um motor de um ou outro carro que passa rumo a uma das inúmeras ruelas que aqui se cruzam. Está escuro, está muito escuro. A iluminação pública existe mas os candeeiros que ainda possuem lâmpadas intactas são cada vez menos. O nevoeiro faz com que  não se consiga ver sequer o outro lado da rua. Estamos em Lisboa mas podíamos estar em Long Reach Road tal é o sombrio da noite e o fantasmagórico da neblina. É justamente assim que imagino as noites em que Jack o estripador atacava, é justamente assim que a minha imaginação desenha uma noite de crime e de violência.

 

Crenças apenas crenças até porque o cenário poderia virar neste preciso momento e entrarmos no mundo da paixão e do amor. Podíamos fazer com que um casal se cruzasse e se apaixonasse ou mesmo um reencontro entre mãe e filho que não se encontram há muitos anos. Se a nossa história muda num segundo porque não poderia esta mudar?

 

De vez enquanto ouvem-se gritos umas vezes mais perto outras mais longe. Vozes de actores de novelas, vozes de comentadores de futebol ou apenas vozes iradas de gente. Voz de quem se sente mal com o mundo e não percebe que a verdade é que se sente mal consigo próprio. São apenas as vozes de quem vive por aqui mas que a estas horas não se atreve sequer a vir colocar o lixo á rua. Lixo comum entenda-se. Porque reciclagem é coisa que não se conhece pelos meandros da Rua sem Nome.

 

Grafites, palavras de ordem, pinturas desbotadas ou descuidadas fazem parte das fachadas da grande maioria dos prédios de 3 andares que por aqui imperam.  São raros os andares que não possuem grades nas janelas, são raros os andares que não possuem varandas com armários e outro sem número de objectos de difícil definição. Há até quem alugue a varanda para sobreviver á crise ou à preguiça. Depende dos casos e das vontades meus caros. Trocam-se 10 m2 por 150 euros que sempre ajudam nos gastos. Privacidade não é preocupação porque é palavra que não se conhece. E vivemos bem sem aquilo que nunca tivemos.

 

Apesar da inexistência de espaços verdes por aqui conseguimos sentir o cheiro a terra molhada. No entanto, este é abafado pelo cheiro a lixo. Lixo que se vai espalhando pela rua fruto das lutas dos inúmeros escanzelados cães vadios que por aqui habitam e que aprenderam a lutar também eles pela sobrevivência. Aqui nem as sociedades protectoras dos animais se atrevem a entrar por muitas denúncias que existam. Esqueceram-se das pessoas porque não se esqueceriam dos animais?

 

Se caminharmos para lá do primeiro quarteirão e olharmos com atenção ali do lado direito encontra-se aquilo que foi um dia um parque infantil mas que hoje não passa de um aglomerado de ferros que põe em perigo não só crianças como adultos. Há uns tempos o Manel da taberna em noite de fogosidade com a Luisinha da retrosaria espetou um ferro não vou dizer onde porque este é um blog sério e, apanhou uma septicemia que o levou desta para melhor. É verdade, sim senhor, e se duvidam estejam á vontade para perguntar.

 

Se caminharmos pela avenida principal numa noite como esta sentimos cheiros de toda a espécie mas sentimos sobretudo o cheiro a medo. É um facto, cheira a Medo na rua sem nome.

 

Cheira não só a medo na rua sem nome mas também cheira a dor, desespero, falta de vontade e necessidade de sobrevivência. Por aqui, passeia-se pela dor como os outros passeiam pelas avenidas. Por aqu,i caminha-se na indiferença de uma vida onde os outros caminham na certeza. Por aqui, a maioria não vive porque não se atreve a viver. Por aqui, a maioria atreve-se apenas a tentar sobreviver porque atrever-se a viver não passa disso mesmo, um atrevimento.

 

Perderam-se sonhos em tempos passados e vestiram-se as capas do não vale a pena.  Se olhássemos com atenção e apesar da chuva e do nevoeiro conseguíamos ver um rosto á janela.  O rosto cansado de quem um dia se atreveu a sonhar mas que com o tempo aprendeu a viver o dia-a-dia. Rosto que demonstra ansiedade e dor, rosto que revela marcas deixadas por acontecimentos indescritíveis, rosto que um dia soube rir mas que com o passar do tempo se limita, de quando em vez, apenas a sorrir. 

 

Maria das Neves apertava o terço ao peito enquanto os seus lábios carnudos se moviam em ritmo acelerado entre avés marias e padres-nossos. Pode-nos faltar tudo desde que não nos falte a fé. Sempre fora, mesmo quando era mais nova, devota fervorosa de Nossa Senhora de Fátima, colocava nela toda as suas aflições, dúvidas e até desejos. Enquanto rezava não tirava os olhos da rua e a ladainha parava apenas  quando se apercebia de algum  movimento.

 

O cabelo completamente branco caia-lhe em desalinho pelo rosto enrugado e mal cuidado, fruto de uma vida de necessidades e de sacrifícios. Tinha sido uma mulher bonita, ainda hoje os seus olhos verdes chamavam a atenção onde quer que fosse. E, quem olhasse para ela nunca diria que era mãe de 5 filhos e muito menos imaginaria tudo aquilo por que passara  para os criar. Maria das Neves pertencia aquele grupo de mulheres com  idade indefinida onde por muito que nos esforcemos nunca conseguimos acertar nos anos de vida. Como os mais atrevidos costumavam dizer “uma mulher que metia muitas mais novas a um canto”.

 

Levantou-se do lugar onde estava ajeitando a bata já coçada que trazia vestida, calçou os chinelos e arrastou-se até à cozinha onde se encostou de novo à janela tentado perscrutar qualquer movimento, qualquer coisa que a fizesse sentir esperança.

 

Arnaldo das Neves não conseguia também ele dormir. Olhava para a mulher e pensava que um dia por amor a ele, ela tinha desistido de um sonho e de uma vida para se enfiar naquele buraco e viverem uma vida a dois. O amor que os unia foi sempre resistindo a todas as dificuldades mas ele sentia sempre o peso de um dia a ter conquistado. Amava-a como no primeiro dia e se havia coisa que sentia falta era da sua gargalhada, aquela que ela foi perdendo  e que um dia deixou de dar.

 

- Ele ainda não chegou?

- Não – respondeu ela sem sequer se voltar.

- Vem-te deitar, é tarde e sabes que o rapaz tem a mania de dormir em casa dos amigos.

- Eu sei Arnaldo, mas hoje estou com um pressentimento horrível e sabes como é.

- Sei . Coração de mãe não se engana.

 

Arnaldo olhou-a e sentiu que todos os dias a admirava mais. Como é que aquela mulher pequena e enfiada conseguia ter mais força que ele sempre que se tratava de defender a família? Como é que aquela mulher educada nos melhores colégios conseguira viver uma vida a dois num bairro daqueles onde nem os cães vadios se atrevem a vaguear e onde os habitantes não passam de meros pratos onde se pratica tiro ao alvo.

 

 É o amor meu caro Arnaldo, é o amor!

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