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Faz da tua vida a tua inspiração!

... Blogger, coach, palestrante, autora, contadora de histórias, formadora e uma apaixonada pela vida ...

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O Fim do Mundo

02.01.15, Marta Leal

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Conseguir um técnico para reparar o esquentador é quase tão difícil como atravessar a Praça do Comércio em noite de passagem de ano. Passei as últimas horas do ano à espera de alguém que estava quase a chegar e que afinal não chegou. Contínuo de alguidar em riste e nunca mas nunca fui tão amiga do meu jarro eléctrico. Se existe algo que me confunde é a falta de compromisso ou o assumir compromissos que sabemos não ir cumprir. Não sou apologista de um compromisso para a vida até porque vivemos num mundo onde a mudança é uma das únicas coisas que temos garantidas mas sou apologista de um compromisso consciente. Simples meus caros ou posso ou não posso. Mais simples não podia ser.

 

O que não foi nada simples foi sair da praça de comércio após o fogo-de-artifício. Acabo o ano a dançar ao som do José Cid e a distribuir passas pelos que estão à minha volta. Começo a sentir-me espalmada e como tenho apenas um metro e meio vou acreditar que lá ao fundo existe um palco uma vez que a única coisa que vejo á minha frente é um casal que ainda não se parou de beijar desde que chegou. Invejo-os. Não pensem que os invejo pelos beijos. A razão da minha inveja é mais requintada vai mais a fundo, invejo-lhes o alheamento de tudo o que se passa à sua volta. Eu não consigo alhear-me das dores de pés e do estado de cansaço de alguém que se levantou às 6 da manhã. Ainda tenho força para uns uhhhus e  yèsssss e dar uns pulinhos de contentamento. Devoro as passas, bebo a champanhe, desejo Bom ano aos meus e aos que nos rodeiam e começo a intencionar para que ninguém queira ficar para o concerto dos xutos. O poder da intenção é do caraças e a malta decide toda ir embora. Segue a enteada mais nova, a filha mais nova, o mais que tudo e eu, todos em direcção ao rio. Pelo caminho piso garrafas, tropeço em pessoas, desvio-me dos banhos de champanhe que continuam e verifico que após tanto esforço não podemos passar por ali. Viramo-nos e desta vez vai o mais que tudo a comandar, as miúdas no meio e eu no final. Somos muitos, somos cada vez mais e atravessar a praça do comércio torna-se equivalente a atravessar Lisboa de uma ponta á outra com os arredores incluídos.

 

Somos de todas as cores e feitios, velhos, novos e de meia-idade. Caminhamos perante aquilo que não é um cenário de guerra mas poderia ser. À nossa volta há gente a festejar, a beijar-se, a vomitar e a urinar onde pode.  Penso que estamos a caminho de casa mas poderíamos estar a caminhar para uma qualquer arca de Noé tal é o estado de confusão que está á nossa volta. Não foi o fim do mundo mas podia ter sido, podia mesmo ter sido.

 

O que vai ter de ser é o regresso ao trabalho e ao planeamento que promete ser demorado. Mas eu volto. Eu sei que volto!

Sobre as trocas e as devoluções

01.01.15, Marta Leal

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Houve dias em que me apetecia pedir-te de volta tudo o que te dei. Em que a raiva e a dor me faziam querer fazer mais do que esquecer ou apagar. Queria mais, queria muito mais. Mais do que vingança queria devolução. Acreditas que queria que me devolvesses tudo o que te dei? Pensei em pedir-te para me devolveres todos os olhares que trocámos e todas as palavras em que nos envolvemos. Os dias que passámos juntos e os abraços que insistimos em dar. Queria que me devolvesses tudo o que um dia decidi ser para ti.

 

Perguntava-me onde seria a secção de devoluções para as questões de amor. Perguntava-me se me ajudariam a preencher toda a minha reclamação porque eu queria tudo, mesmo tudo sem qualquer lugar para negociações. Sentia raiva e dor onde antes tinha sentido paixão e amor. Como se odeia quem se amou tanto? Como nos permitimos sequer trocar de sentimentos como se troca de roupa? Sabes que até certo ponto queria sentir-me assim? Queria chorar e queria que todos vissem que chorava. Sabes porquê? Porque era tão mais fácil viver o papel de vítima.

 

Queria de volta todas as horas que passamos juntos, toda a entrega quando nos amávamos de forma desenfreada ou de forma serena e calma. Queria tudo o que um dia te tinha decidido dar. Que raiva sentir que te dei tanto e que não quiseste ficar.

 

Sabes que é verdade o que se diz sobre a raiva? Sabes que ela cega, que te impede de ver e de sentir? Consome-te. Faz com que cada dia te tornes mais mesquinho naquilo que és, naquilo que sentes e naquilo que fazes. Esqueci-me. Acreditas que houve um momento em que me esqueci do que recebi? De tudo o que me deste e de tudo o que foste. Percebi quando a senhora da secção das devoluções me disse que no que toca ao amor só há secção de trocas. De trocas? Perguntei eu incrédula e, devo confessar, irritada. Sim, respondeu-me ela sorridente. Ao que consta era muito frequente os corações partidos irem ter á secção de devoluções quando deveriam ir ter à secção de trocas.

 

Na secção de trocas percebi que para me devolveres um beijo eu teria de te devolver todas as sensações que ele me provocou e que para me devolveres o meu tempo eu teria de te dar todos os olhares que me fizeram sorrir. Sabias que ate queriam que te devolvesse aqueles abraços apertados que me davas quando eu estava doente?

 

Foi nesse momento que percebi que não era de trocas nem de devoluções que eu precisava. Foi exactamente nesse momento que eu percebi que não estava pronta para abdicar de uma parte da minha vida onde o amor e a paixão foram uma realidade. Não te podia pedir que me devolvesses aquilo que eu me recusava a largar. Precisava apenas de seguir em frente consciente que o amanhã é a soma de um passado e de um presente. Quero sentir saudades de quem fomos. Quero manter tudo comigo para que faça parte de mim. Peço-te que me perdoes por todos esses pensamentos e vontades. Faz parte. Faz parte de um coração partido demorar a colar.Faz parte do ser humano demorar a perdoar!

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