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Faz da tua vida a tua inspiração!

... Blogger, coach, palestrante, autora, contadora de histórias, formadora e uma apaixonada pela vida ...

Faz da tua vida a tua inspiração!

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Sou dura de ouvido

11.01.15, Marta Leal

 

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Sou dura de ouvido. Não reconheço uma nota pese embora o facto de ter andado em aulas de piano na infância. Não porque gostasse. Apenas e tão-somente porque era óptimo para a minha educação. Desenganem-se os mais persistentes. Se não gostamos não fazemos. Agora que penso nisso, consigo recordar as escalas de notas, os solfejos e a voz da senhora Dona Amélia nas suas tentativas desesperadas em fazer de mim uma pianista de alto gabarito (só no gabarito porque aqui de alto temos muito pouco).

 

Fala-se da D. Amélia e lembro-me da D. Branca. Melhor apressar-me a explicar antes que pensem que a pouca sanidade que me resta se tenha desvanecido. A D. Branca não era a das fraudes mas sim aquela senhora sem idade que se esforçou durante tardes a fio a ensinar-me a bordar, a costurar e a fazer crochet. Se na casa da outra descobri que era dura de ouvido na casa desta apreciava o silêncio. Sim. Porque ali qualquer risinho ou sussurro era cortado pelo olhar penetrante num rosto que, naquele tempo, eu pensava ter mais de 100 anos. Às duas por três falhou-se nas tentativas de me tornar prendada.

 

Evado-me de qualquer crença e avanço com os meus valores. Prefiro subir às árvores, brincar ao bate pé e andar de bicicleta. Também agora me revolto e afirmo que gosto de rap e música tribal.

 

Transformam-se as notas musicais em letras e os pontos de bordado em palavras. Fuja-se do que nos foi imposto e encostemo-nos ao que nos faz bem. Gosta-se de palavras bonitas sussurradas ao ouvido. Sorrimos ao som de frases escritas no nosso tom. Saltemos pela escala e não importa que se desafine até porque vivemos numa melodia menos que perfeita.

Porque na minha infância existiam rostos sem idade

10.01.15, Marta Leal

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Recorda-se a sala de estudo da D. Ermelinda. Relembram-se cheiros de pó de arroz, lábios pintados de vermelho e rosto sem idade. A voz serena entre os ditados e as cópias. Recordo o menino menos inteligente que escrevia todas as pontuações como se de palavras se tratassem. É-se discreta no corrigir e eleva-se o respeito pela diferença. As pausas dos pontos finais, os travessões e as virgulas. A contra gosto devo confessar. Chamavam-me as brincadeiras de rua, a bicicleta, as corridas e as apanhadas. Prendia-me a necessidade de uma boa educação sempre em nome da tradição e dos bons costumes.

 

Interrompa-se o discurso para se fazer um esclarecimento. Não que me tivesse sido pedido mas penso que é pertinente salientar que não nasci em berço de ouro. Tomei muitas vezes banho em alguidares de zinco da mesma foram que nos últimos dias tomei banho em alguidares de plástico.  O avô construía-nos os carros que os pais não conseguiam comprar. Não me lembro que me tenham lido histórias na minha infância nem sei onde fui buscar este meu amor às letras. Não nasci num mundo de livros mas construí um castelo de letras. Cuidaram-me no ser e prepararam-me para sentir.

 

De início alternam-se as subidas ás árvores com os livros da Anita. Corre-se entre ruas e imitam-se personagens dos livros da Enid Blyton, somos muitas vezes os cinco, os quatro e as gémeas. Vivem-se mistérios da Miss Marple, ficamos fãs de Stanley Gardner e apaixonamos-nos pelo A.A.Fair. Na adolescência perdemos jogos de praia, namoros de verão e saídas para ficarmos com o Eça, Almeida Garrett e Bernardim Ribeiro. Somos diferentes, sentem-nos diferentes. Sugamos os que partilham connosco as letras e silenciamos-nos perante os que não sentem a mesma cumplicidade.

 

Amor ás letras? Misturam-se os cheiros a livros antigos, salas de bibliotecas e livros alugados. Prevalecem os momentos de silêncio onde me evado do agora e viajo no tempo de outras letras.

Aliam-se o amor às letras e o amor ao silêncio numa melodia essa sim mais que perfeita!!!!

 

PS: Eu sou a da mãozita na anca.

Maria Etelvina mais conhecida por Tininha Viperina

09.01.15, Marta Leal

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Escondia-se por detrás das cortinas enquanto perscrutava as novidades. Observava, com olhar microscópico, todos os que dela se aproximavam. Não foram muitos, é bom que se diga. Até porque não os considerava à altura de poderem partilhar da sua companhia. Saltitava de observação em observação e de crítica em crítica. Ria-se do mal dos outros e, se existisse alguém que não soubesse o que aconteceu, não se coibia de o contar, sempre com um acrescento de malicia polvilhado com mesquinhice.   

 

Loura de nascimento mas platinada por tintas, Maria Etelvina, de nome de baptismo, mas Tininha de nome assumido, movia-se pela vida alimentando-se da desgraça alheia. Se não existisse desgraça, criava-se, porque isto sem novidades não tinha piada nenhuma. Saltitava de história de derrota em história de derrota. Pergunto-me como conseguia e contam-me que se alimentava de programas de televisão, que procurava inspiração nas novelas e que tinha como motivação o sobressair a todo o custo ou a custo nenhum. O que interessa é que reparassem nela.

 

Conspirava traições, desfalques, roubos e até a senhora do r/c dto., que se encontrava imobilizada numa cama devido aos seus 100 anos e a uma anca partida, foi acusada de fingir para se livrar da acusação do envenenamento do tiquinho, o gato do Senhor Manuel. Pobre senhora, não morreu da queda, morreu de desgosto de ver o seu nome difamado em praça pública.

 

Contaram-me também que esteve na origem do despedimento da mulher do senhor Engrácio quando, com voz sibilina, deu a entender que a desgraçada da senhora andava metida com o Anastácio do talho. Depois de uma não muita intensa investigação perceberam que o neto do farmacêutico nunca tinha seduzido a Juvenália e que a pobre da mulher tinha sido posta fora de casa sem motivo algum. A esta conclusão respondera Maria Etelvina com um “onde há fumo há fogo e essa nunca me enganou. Digam o que disserem essa nunca me enganou”. 

 

Nunca se enganava sobre os outros e era especialista sobre tudo, desde moda a comportamentos. Estava sempre a par das últimas tendências. Nada lhe escapava e estava atenta a tudo. Seguia-se por uma panóplia de verdades muito próprias e muito suas. Isenta de remorsos, preocupava-se mais com o parecer do que com o ser. Não perdoava um erro de moda e muito menos um erro de acção. Perante ela, as restantes más-línguas do bairro podiam entrar em um qualquer convento e não demorariam a ser canonizadas.

 

Foi hoje a enterrar Maria Etelvina dos Santos Ferreira, depois de ter sido encontrada em sua casa passado meses de ter tido um ataque cardíaco. Foi hoje a enterrar a Tininha Viperina como tantos lhe chamavam. No cemitério, estavam ela e o coveiro que veio de outra freguesia e a quem foi prometida uma protecção especial pelo pároco da comunidade. Foi descoberta, não pelo cheiro, mas apenas e somente pela ausência de conflito e pela paz que se tinha subitamente instalado na praceta das Flores. Temeram abrir-lhe as portas e, até, o velho capitão do posto pediu testemunhas, não fosse a Dona Tininha acusá-lo de tentativa de invasão de domicílio. Recusou-se o coveiro a enterra-la e o padre a falar no enterro.

 

Foi hoje a enterrar Maria Etelvina dos Santos Ferreira, mais conhecida por Tininha Viperina, que tanto jus fez ao nome. Respira-se de alívio na velha praceta. Faz-se um pacto de não falar no seu nome, nem tão pouco das suas acções. Não vale a pena falar do que não interessa, dizem os mais velhos e aplaudem os mais novos. Consta que os animais regressaram à rua e que as janelas se encheram de flores.

O meu mundo está a mudar

08.01.15, Marta Leal

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Sou muito ciosa da minha carreira tal como sou dos meus filhos e de tudo o que gosto. Não tenho por princípio entrar em confronto de opiniões mas gosto de uma boa partilha de ideias. Confunde-me a banalização e a forma como o coaching está a ser trabalhado em Portugal e preocupa-me as confusões que isso possa gerar naqueles que são desprovidos do conhecimento necessário para separar o trigo do joio. Compete-se muito numa profissão que apela á partilha. Ilude-se muito numa profissão que grita pela autenticidade. Opiniões meus caros simples opiniões.

 

Este Natal, o filho mais velho, o tal que é vegan, devolveu-me os presentes. “Gosto imenso mas não posso usar porque são de lã”. Ao meu “mas ninguém mata ovelhas para lhes tirar a lã” recebi um duro e seco “mas não sabes nas condições em que elas vivem”. Na minha cabeça surgiu de imediato a imagem da ovelha Choné, única ovelha com quem contactei nas últimas décadas, triste, nua e maltratada o que me fez pensar “bolas eram só umas camisolas de lã imagina que lhe tenho comprado uns sapatinhos de pele”. Corre-se para a loja. Pede-se á empregada para que leia as etiquetas de ponta a ponta uma vez que me esqueci dos óculos. Troca-se os presentes e ganha-se consciência de que mesmo que não queira as palavras do filho começam a fazer efeito.

 

Fazem tanto efeito que massacrei o mais que tudo enquanto comprava os sapatinhos de pele. Massacrei sem efeito até porque às minhas palavras de manipulação ouvi um curto e simples “os meus pés não calçam fancarias”. Desiste-se do massacre mas não se desiste da certeza de que o mundo está a mudar. O meu mundo está, sem sombras de dúvidas, a mudar.

Esta não é uma História de Amor

07.01.15, Marta Leal

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Risque-se o amor das letras. Apague-se príncipes e princesas. Palavras de romance estão proibidas mas a história vai continuar. Pedem-nos palavras novas, ideias novas e vontades novas. Equacionam-se temas possíveis e sorrimos na primeira reflexão. Oxalá fosse tão fácil definir tudo o resto. Fale-se então de tudo menos de amor.

 

Sobe a rua do Carmo. Vê o reflexo numa montra e distrai-se com os artistas de rua. Sorri enquanto actuam. Uns cêntimos só uns cêntimos ouve pedir-lhe. Abana a cabeça num não impensado e desarma-se com um “muito obrigada que só esse sorriso já valeu a pena”. Recorda-se de Portobello Market em especial de um artista que adorava ouvir tocar. Promete-se lá voltar. Ajeita o cabelo que teima em soltar-se e sente o cheiro de castanhas a assar.

 

Se se falasse de amor estava na hora de um ele entrar. Certamente cruzariam olhares e fixar-se-iam num flirt mais ou menos velado. Mas não. Aqui fala-se de uma ela que passeia pelas ruas de Lisboa. Ela e os seus pensamentos.

 

Pensa na quantidade de pessoas à sua volta. Recorda-se dos tempos em que fazia aquele caminho todos os dias. Interessante. Veio-lhe à memória o incêndio do Chiado. Olha à volta e apercebe-se do que foi feito. Aprecia as floreiras nas janelas. Gosta do Chiado. Pensando bem sempre gostou do Chiado. Senta-se na esplanada da Brasileira lado a lado com Fernando Pessoa. Pensa nos seus heterónimos e pergunta-se o porquê de não lhes terem erguido, também a eles, uma estátua.

 

Pede o café da praxe. Pousa o livro na cadeira do lado. Não percebe porque continua a trazer um livro se o que lhe interessa verdadeiramente são as pessoas. Gosta de observar as pessoas. Viaja novamente. Desta feita estamos na Praça da Cidade Velha em Praga. Perde-se em imagens soltas. Denunciam-na as risadas e regressa aos olhares dos que estão sentados por perto.

 

Encanta-se com os que tocam á sua frente. Abana o corpo ao ritmo dos instrumentos. Sorri mais uma vez e perde-se no gesto ao lado. Estranham-se gestos diferentes. Pensa-se em sexos e em géneros e recua até ao Paraíso. Como seria o dia-a-dia de Eva e de Adão? Pergunta-se.

 

Faça-se um parêntese e acalmem-se os leitores. Não se fala de romance mas a história honra a moral e os bons costumes. Adão e Eva estão cobertos por uma parra. A única orgia que poderá existir é a de letras. Orgasmos e clímax apenas nas ideias. Avancemos então para a nossa protagonista que se bem se lembram estava entre o Chiado e o Paraíso. Reconhece a importância das lutas pela igualdade das mulheres. Mas derrete-se num gesto cavalheiro. Revolta-se contra as desigualdades de oportunidades. No entanto, não abdica de um deixar passar na frente. Indigna-se com diferenças salariais. Não resiste a um puxar de cadeira. Sente-se tonta com tais pensamentos alternados. Chama o empregado e pede-lhe uma água.

 

Observa os que caminham. Apressam-se uns e detêm-se outros. Falam-se línguas diferentes. Sobem e descem num vai e vem constante. Vê casais diferentes. Sorri na coragem aplaudindo a vontade. Esconde-se nos Prada. Mais fácil assim. Não gosta que a olhem porque não gosta que a leiam. Sempre foi assim mas não sabe se sempre assim será.

 

Cai a noite em Lisboa. Solta-se o vento de Janeiro. Perdeu-se no tempo de um dia sem tempo. Preocupam-na as diferenças de género mas resolve-se a esquecer a Anatomia, Biologia, Psicologia e afins. Caminha em direcção ao miradouro. Gosta da vista de cidade iluminada. Perde-se no postal vivo. Recua-se a outros tempos e suspiram-se todas as promessas que ficaram por cumprir.

 

Desce no passeio contrário ao que subiu. Abriga-se da chuva que teima em cair. Choca nos que se preparam para a noite de Lisboa e sente-se novamente adolescente. Pergunta-se, as vezes que terá caminhado por ali. Procura caras e situações. Fácil perder pessoas no nosso tempo mas mais fácil ainda manter amizades. Apressa-se na vontade de uns braços que a esperam para a abraçar. Perde-se na multidão que circula e ruma aquilo que prometemos não falar.

 

Gosto de desalinho mas quando é para seguir regras seguem-se regras. Pensando bem gosto do equilíbrio que os opostos me trazem. Satisfaz-me que já possa falar de amor. De caminho juntemos ao amor a acção e vamos ver o que isto vai dar.

 

Perde-se na multidão que circula e ruma aquilo que prometemos não falar. Desce a Rua do Carmo apressada. Sente-se rejuvenescida numa tarde bem passada. Gosta de Lisboa mas para ser mais objectiva do que gosta mais é do cheiro a Lisboa. Enquanto caminha tem consciência que ao perder-se nos rostos dos outros se perdeu no tempo. Liga. Diz-se atrasada e diz que o quer. Derrete-se na resposta e sorri com aquele sorriso idiota de quem se sente apaixonado.

 

Soltam-se gemidos enquanto se sente prazer. Murmuram-se juras de amor sentidas. Entrega-se o corpo como se de sobrevivência se tratasse. Luta-se corpo a corpo e empata-se na vitória. Somos dois, somos um. Alterna-se entre risos e sorrisos. Desarrumam-se leitos e arrumam-se vontades. Fundem-se cheiros que se entranham na pele. Amam-se com desejo e Abraçam-se numa pausa sentida. Partilha-se numa cumplicidade indescritível e pede-se mais. Sempre mais. Despedem-se numa saudade antecipada.

 

Fiquemos por aqui no que respeita a sensualidade. Não queremos censura erótica nem tão pouco impedimentos de escrita. Saboreemos o que foi escrito e esperemos pelos próximos capítulos. Acabe-se por momentos com o romantismo e avance-se com a acção que o número de palavras está-se a esgotar.

 

Não gosta quando a porta se fecha atrás de si. Dói quando o deixa. Os gestos saem automáticos enquanto entra no carro. Ainda sente os beijos dele nos lábios. Sente o toque na pele e sente ainda mais o cheiro. Pensa no quanto gosta do cheiro. O pensamento voa enquanto os lábios acompanham a música que toca no rádio. Estaciona em frente a casa. Sorte ou simplesmente vontade? Não percebe o porquê de lhe perguntarem se não tem medo. O medo impede-nos de viver, pensa enquanto sai do carro.

 

Alerta Vermelho

06.01.15, Marta Leal

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Há momentos em que também me canso. E não pensem que me canso do particular. Canso-me do todo. Daquele todo que insiste em fazer diferente daquilo que foi planeado. Daquele todo que é muito mais que a soma de todas as partes. O que me vale é que é sol de pouca dura até porque nos proximos dias não tenho tempo para canseiras.

 

Ontem fui chamada, pela filha do meio, para um alerta vermelho na cozinha enquanto secava o cabelo. Alerta vermelha, alerta vermelho dizia a filha do meio enquanto completava a informação com um pouco explicito “o melhor é ires à cozinha”. Nos poucos passos que distanciam as duas divisões da casa penso que não pode acontecer nada de grave. Afinal são 8 da manhã ainda ninguém teve tempo para fazer nenhum disparate grave. O mais que tudo está com a esfregona a limpar o armário e eu pergunto o que raio está ele a fazer com a esfregona do chão dentro do armário. Pare-se, pare-se nas letras para nos podermos encontrar na história. São 8 da manhã e eu estou sem óculos para além do mais a água tem uma cor transparente portanto aquilo que é aparente aos outros não tem de ser aparente para mim. Olhos diferentes vêm coisas diferentes, meus caros.

 

Bom, não se perca mais tempo e volte-se à parte em que o mais que tudo larga tudo e pergunta se eu não vejo que está uma inundação na cozinha. Eu apanho o que tenho à mão que por acaso são uns toalhões mas que também podiam ser uns casacos e mando tudo para o chão. O mais que tudo vocifera palavras de maledicência á água, ao esquentador que amuou novamente, á vida, aos disparates e parte para mais uma jornada de banho de alguidar. Eu encolho os ombros e levo a filha mais nova à escola enquanto a do meio diz que vai a pé porque não quer contribuir para a poluição ambiental.

 

Volto, entro em casa e pergunto ao mais que tudo. Então? Temos uma vida super divertida não achas?

Há dias em que um mais que tudo faz toda a diferença na vida de uma menos que perfeita.

Não gosto de limpar a seco!

05.01.15, Marta Leal

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Não gosto de limpar a seco tal como não gosto que me falem a seco. Não gosto de espanadores fico sempre com a sensação de que o pó vagueia novamente pela casa, tal qual palavras que nos magoam vagueiam pela nossa mente por tempo indeterminado. Não gosto de certos cheiros de produtos de limpeza fico sempre com a sensação que aquelas essências foram misturadas sem cuidado e em vez de uma fragrância agradável temos tão e somente uma mentira velada por cheiros doces, enjoativos e nauseantes. Não gosto do toque do pano do pó tradicional arrepia-me tal como me arrepia morder um pêssego com pele. Gosto, contudo, do cheiro do produto que trata as madeiras. Uso e abuso dele mais pelo prazer do cheiro do que pelo prazer de limpar. Gosto de aspirar e sempre que o faço penso que devia aspirar problemas da mesma forma que aspiro o pó.

 

Sempre gostei de arrumar as ideias do mesmo modo que arrumo o nosso roupeiro das recordações. Não gosto de limpar mas gosto de encontrar tudo no lugar. Aqui encontramos passado, presente e até um futuro programado que nunca chegou a ser vivido. Lembras-te? Das viagens, dos projectos de casa e até dos filhos que íamos ter. Encontro aqui tudo seja em forma de letras, de imagens, de flores secas ou objectos que sozinhos parecem não ter nexo mas quando ligados a uma recordação fazem todo o sentido.

 

Há anos que faço o mesmo ritual prendo o meu cabelo já grisalho com aquela fita branca de que tanto gostavas, coloco aquele meu creme hidratante para evitar que a minha pele sofra agressões de qualquer tipo de pó. Sabes que continuo vaidosa? Ensinaste-me isso numa altura em que a minha auto-estima simplesmente não existia. Ensinaste-me não só a gostar de mim mesma mas sobretudo a aceitar-me como sou. Hoje aceito todas as minhas rugas mas não consigo de deixar de pensar como seria aqui contigo, o que me dirias quando me lamentasse, a forma como me passarias a mão pelo rosto e me dirias que para ti continuaria linda. Coloco sempre aquela camisola azul escura que comprámos quando fomos pela primeira vez a Londres. Londres, perdi a conta das vezes que por lá passeámos, os espectáculos a que assistimos ou mesmo a insistência que tinhas em que fossemos para lá viver. Agora que penso nisso nem sei porque não o fizemos. As velhas calças pretas de algodão não resistiram a tantos anos de limpezas e lavagens. Até tu já implicavas que as vestisse. Recordaste da quantidade de vezes que me disseste para as deitar fora? Hoje tenho umas novas azuis escuras só para ser diferente.

 

Já não tenho a mobilidade que tinha há uns anos. Deixei de me conseguir sentar no chão com as pernas dobradas à chinês. Ainda me rio do teu ar sempre que eu o fazia. Hoje limito-me a ajoelhar-me enquanto retiro todas as caixas e as limpo uma a uma. Sabes que deixo sempre para o fim a nossa caixa? A que contem tudo o que fizemos, o que fomos e que escrevemos um ao outro? Sim, é verdade. Depois da limpeza feita pego na nossa caixa despejo-a e, revivo todo o que fomos e tudo o que vivemos. Sabes que continuei a escrever-te? Todos os anos te escrevo uma carta depois de recordar e de reviver momentos, os nossos momentos, aqueles que recordo como se fosse hoje. Faço isso no nosso cadeirão, aquele que mandámos fazer à medida para que ficássemos os dois bem juntinhos. Deixavas que lesse para ti enquanto as tuas mãos me afagavam o cabelo. Por vezes, deixavas-te ir para o mundo dos sonhos embalado pela minha voz e isso não me incomodava porque sabia que estavas ali comigo e para mim. Afinal não conseguimos cumprir a promessa de envelhecermos juntos, envelhecemos até a vida nos permitir que o fizéssemos. Não gosto desta parte, não gosto da parte em que recordo a tua morte. Mas para recordar o que vivemos tenho de recordar porque não o continuámos a fazer,

 

Volto a arrumar a nossa caixa no local que lhe está reservado. Fecho a porta do roupeiro das recordações e inspiro o ar a lavado que por ali se sente. Gosto do cheiro a lavado, gosto da imagem que fica, gosto da sensação de dever cumprido. Nestes dias limpam-se objectos e lavam-se almas. Gosto do que a minha alma sente, gosto … de voltar a sentir o que um dia senti. Sinto-te ali comigo como se nunca tivesses partido. Gosto apenas …

Milagre, um autêntico milagre!

04.01.15, Marta Leal

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Gosto dos dias que Janeiro nos decidiu dar. Gosto especialmente do tom do frio a combinar com o brilho do sol é quase como se nos fosse dada a honra de assistir a uma passagem de modelos de um qualquer famoso costureiro de alta-costura. Demasiada beleza numa combinação de cores difícil de imitar, muito difícil de imitar. Ontem o calor e o sol seduziram-me. Hesitei entre ficar a trabalhar e cumprir prazos e refastelar-me numa qualquer esplanada a usufruir do sol. Venceram os prazos e a certeza de que bato em alguém a próxima vez que me disserem que tenho sorte, que tenho muita sorte. A sorte trabalha-se meus caros e não é pouco.

 

O filho mais velho transmite-me a notícia de que vai para Lisboa porque tem um trabalho para fazer na faculdade. A mim parece-me que se vai dar ao luxo de se deslocar pra um local onde o banho seja de mais fácil acesso. Esqueço a saudade de mãe, saco da estratégia de coach e foco-me no positivo “Menos mal” penso eu “vou-me enfardar em “carnixa” sem ter ninguém a falar-me de cadáveres, maus tratos e alimentação errada”.

 

Durante o dia de sexta perco a noção dos telefonemas que fiz em busca do “ reparador” de esquentadores. Pelo meio vou estanhando a ausência de reclamação da filha do meio mas não ligo e penso “tá crescidita a pequena já não reclama tanto”. Afinal não era uma questão de amadurecimento mas apenas e simplesmente o facto de o esquentador ter ressuscitado ao fim de três dias, tal e qual o outro senhor. Garanto isso ao técnico que me diz com ar trocista “Sim, às vezes isso acontece eles arranjarem-se sozinhos”. Ainda pensei contar-lhe que a torneira de vez enquanto se abre sozinha mas foi tão difícil encontrar alguém que viesse cá a casa.

 

Por falar em ir e vir hoje aproveito e hoje vou para os saldos coma filha do meio, mas eu volto. Eu sei que volto.

Encontros e Desencontros

03.01.15, Marta Leal

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Era domingo um daqueles típicos de Inverno. Um dia triste que acaba com noite cerrada coberta de um nevoeiro intenso. Regresso a casa cansada e percorro a rua deserta. Caminho com passo apressado, o frio corta-me a respiração e eu só quero chegar a casa. Vejo um vulto a caminhar na minha direcção. A princípio não me assusto agora que penso nisso é engraçado que passos atrás de nós podem gerar o pânico e passos à nossa frente não nos perturbam. Vejo-o cada vez mais perto reparo que se enrola num cobertor e se tenta proteger do frio como pode. Um sem abrigo penso para mim mesma. Passamos lado a lado sem que os olhares se cruzem eu por receio ele talvez por vergonha.

 

O Joãozinho saltita à minha frente. Adora correr entre as poças de água. E, quando me apanha distraída salta de propósito para o meio delas. Faço que não vejo afinal de contas lembro-me do prazer que me dava fazer o mesmo quando tinha a idade dele. Afasta-se mais do que é costume, o meu coração acelera quando o vejo perto da estrada. Ouço um carro a descer a rua, largo os sacos e corro em direcção a ele. O coração bate acelerado, o corpo responde mas a voz não sai. Ele saltita no meio da estrada alheio ao perigo e ao que o rodeia. O carro aproxima-se, ouço o chiar de travões e vejo-o saltar e tirar o Joãozinho da estrada por uma fracção de segundos. Corro até eles. Abraço-me ao meu filho, não consigo suster as lágrimas. Olho para lhe agradecer mas ele já não está lá. Procuro-o no grupo de pessoas que se juntou à minha volta, vejo-o na esquina a espreitar assustado. Sorriu-lhe e digo obrigada muito baixinho. Ele sorri, acena e afasta-se.

 

Procuro-o durante semanas. Contacto com instituições, faço perguntas mas ninguém tem conhecimento de nenhum sem abrigo que pare por aquelas paragens. Preciso de lhe agradecer, preciso de o encontrar, preciso de retribuir o que fez por mim. O tempo passa mas não me faz esquecer. Nunca se esquece o que fazem pelos nosso filhos. E eu não esqueço que um dia aquele homem salvou a vida do Joãozinho.

 

Chega o verão e com ele a vontade de vaguear pelas esplanadas quando a noite acontece. O tempo convida a aproveitar ao máximo o dia quase como se não quiséssemos que ele acabasse. Estou concentrada na conversa que mantenho com os amigos, nas gargalhadas e na boa disposição. As crianças brincam por ali perto e enquanto os observo vejo-o caminhar para perto de nós. Levanto-me feliz por o ter reencontrado. Sinto uma divida de vida para com ele.

 

Aproximo-me, pergunto-lhe se se lembra de mim. Começo a explicar-lhe quem sou e ele responde que não é preciso. Conta-me que me conhece desde sempre. Diz que embora não andássemos nas mesmas turmas frequentamos as mesmas escolas. Fala-me de amigos de infância em comum. Fala-me de festas e espectáculos onde estivemos juntos. Faço um esforço mas não me recordo. Procuro-lhe no rosto sujo e cansado alguma referencia que me faça recordar. Culpabilizo-me e ele percebe. Diz que não tem importância que seguimos caminhos diferentes. Eu fui pelo certo ele pelo errado. Pergunta-me se me lembro desta ou daquela situação. Diz-me quem são os pais. Fico boquiaberta agora sim agora sei quem ele é. Lembro-me de ser uma miúda e babar quando ele passava. Aliás lembro-me de todas suspirarmos só por um sorriso, uma atenção daquele rapaz lindo.

 

Pergunto-lhe o que aconteceu. Explica-me que uma coisa levou à outra. Conta-me como se meteu nas drogas. As mentiras para ele próprio de que ia sair, de que não era viciado. As mentiras para os outros, o desespero para arranjar dinheiro para o vicio e todo um sem numero de situações que levaram todos à exaustão. A opção de viver na rua e o hábito que criou. Pergunto-lhe se continua tudo igual. Diz-me que não que o vício morreu há muitos anos. Mas que ninguém confiava nele para lhe dar uma oportunidade. Diz que errou e que está a pagar por isso.

 

Sinto-me angustiada e impotente perante uma situação destas. Digo-lhe que vou tentar ajudar. Digo-lhe que vou falar com pessoas. Responde-me que não vale a pena que já não sabe viver de outro modo. Diz que gostou de falar comigo que há muito tempo que não falava com ninguém. Vira-me as costas e eu chamo-o. Vira-se e sorri “afinal lembras-te do meu nome” diz-me. Pergunto-lhe se posso fazer alguma coisa por ele. Diz-me que a única coisa que posso fazer por ele é sorrir-lhe sempre que o encontrar.

 

Eu fico a vê-lo a afastar-se. Vestido com roupas remendadas, ombros descaídos e cabelo descuidado. Caminha vagarosamente como se arrastasse uma multidão atrás dele. Penso na ironia do destino e no facto daquele rapaz de quem eu ansiava um sorriso se ter tornado num homem que só pede a alguém que lhe sorria.

 

Somos as escolhas e os caminhos que decidimos fazer!