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Marta Leal

... aventuras e desventuras de uma eterna apaixonada pela vida, pela familia e pela profissão que desempenha ... Sou terapeuta de desenvolvimento pessoal, sou escritora, inspiradora e formadora

Marta Leal

... aventuras e desventuras de uma eterna apaixonada pela vida, pela familia e pela profissão que desempenha ... Sou terapeuta de desenvolvimento pessoal, sou escritora, inspiradora e formadora

Não gosto de limpar a seco!

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Não gosto de limpar a seco tal como não gosto que me falem a seco. Não gosto de espanadores fico sempre com a sensação de que o pó vagueia novamente pela casa, tal qual palavras que nos magoam vagueiam pela nossa mente por tempo indeterminado. Não gosto de certos cheiros de produtos de limpeza fico sempre com a sensação que aquelas essências foram misturadas sem cuidado e em vez de uma fragrância agradável temos tão e somente uma mentira velada por cheiros doces, enjoativos e nauseantes. Não gosto do toque do pano do pó tradicional arrepia-me tal como me arrepia morder um pêssego com pele. Gosto, contudo, do cheiro do produto que trata as madeiras. Uso e abuso dele mais pelo prazer do cheiro do que pelo prazer de limpar. Gosto de aspirar e sempre que o faço penso que devia aspirar problemas da mesma forma que aspiro o pó.

 

Sempre gostei de arrumar as ideias do mesmo modo que arrumo o nosso roupeiro das recordações. Não gosto de limpar mas gosto de encontrar tudo no lugar. Aqui encontramos passado, presente e até um futuro programado que nunca chegou a ser vivido. Lembras-te? Das viagens, dos projectos de casa e até dos filhos que íamos ter. Encontro aqui tudo seja em forma de letras, de imagens, de flores secas ou objectos que sozinhos parecem não ter nexo mas quando ligados a uma recordação fazem todo o sentido.

 

Há anos que faço o mesmo ritual prendo o meu cabelo já grisalho com aquela fita branca de que tanto gostavas, coloco aquele meu creme hidratante para evitar que a minha pele sofra agressões de qualquer tipo de pó. Sabes que continuo vaidosa? Ensinaste-me isso numa altura em que a minha auto-estima simplesmente não existia. Ensinaste-me não só a gostar de mim mesma mas sobretudo a aceitar-me como sou. Hoje aceito todas as minhas rugas mas não consigo de deixar de pensar como seria aqui contigo, o que me dirias quando me lamentasse, a forma como me passarias a mão pelo rosto e me dirias que para ti continuaria linda. Coloco sempre aquela camisola azul escura que comprámos quando fomos pela primeira vez a Londres. Londres, perdi a conta das vezes que por lá passeámos, os espectáculos a que assistimos ou mesmo a insistência que tinhas em que fossemos para lá viver. Agora que penso nisso nem sei porque não o fizemos. As velhas calças pretas de algodão não resistiram a tantos anos de limpezas e lavagens. Até tu já implicavas que as vestisse. Recordaste da quantidade de vezes que me disseste para as deitar fora? Hoje tenho umas novas azuis escuras só para ser diferente.

 

Já não tenho a mobilidade que tinha há uns anos. Deixei de me conseguir sentar no chão com as pernas dobradas à chinês. Ainda me rio do teu ar sempre que eu o fazia. Hoje limito-me a ajoelhar-me enquanto retiro todas as caixas e as limpo uma a uma. Sabes que deixo sempre para o fim a nossa caixa? A que contem tudo o que fizemos, o que fomos e que escrevemos um ao outro? Sim, é verdade. Depois da limpeza feita pego na nossa caixa despejo-a e, revivo todo o que fomos e tudo o que vivemos. Sabes que continuei a escrever-te? Todos os anos te escrevo uma carta depois de recordar e de reviver momentos, os nossos momentos, aqueles que recordo como se fosse hoje. Faço isso no nosso cadeirão, aquele que mandámos fazer à medida para que ficássemos os dois bem juntinhos. Deixavas que lesse para ti enquanto as tuas mãos me afagavam o cabelo. Por vezes, deixavas-te ir para o mundo dos sonhos embalado pela minha voz e isso não me incomodava porque sabia que estavas ali comigo e para mim. Afinal não conseguimos cumprir a promessa de envelhecermos juntos, envelhecemos até a vida nos permitir que o fizéssemos. Não gosto desta parte, não gosto da parte em que recordo a tua morte. Mas para recordar o que vivemos tenho de recordar porque não o continuámos a fazer,

 

Volto a arrumar a nossa caixa no local que lhe está reservado. Fecho a porta do roupeiro das recordações e inspiro o ar a lavado que por ali se sente. Gosto do cheiro a lavado, gosto da imagem que fica, gosto da sensação de dever cumprido. Nestes dias limpam-se objectos e lavam-se almas. Gosto do que a minha alma sente, gosto … de voltar a sentir o que um dia senti. Sinto-te ali comigo como se nunca tivesses partido. Gosto apenas …

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