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Marta Leal

... aventuras e desventuras de uma eterna apaixonada pela vida, pela familia e pela profissão que desempenha ... Sou terapeuta de desenvolvimento pessoal, sou escritora, inspiradora e formadora

Marta Leal

... aventuras e desventuras de uma eterna apaixonada pela vida, pela familia e pela profissão que desempenha ... Sou terapeuta de desenvolvimento pessoal, sou escritora, inspiradora e formadora

Maria Etelvina mais conhecida por Tininha Viperina

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Escondia-se por detrás das cortinas enquanto perscrutava as novidades. Observava, com olhar microscópico, todos os que dela se aproximavam. Não foram muitos, é bom que se diga. Até porque não os considerava à altura de poderem partilhar da sua companhia. Saltitava de observação em observação e de crítica em crítica. Ria-se do mal dos outros e, se existisse alguém que não soubesse o que aconteceu, não se coibia de o contar, sempre com um acrescento de malicia polvilhado com mesquinhice.   

 

Loura de nascimento mas platinada por tintas, Maria Etelvina, de nome de baptismo, mas Tininha de nome assumido, movia-se pela vida alimentando-se da desgraça alheia. Se não existisse desgraça, criava-se, porque isto sem novidades não tinha piada nenhuma. Saltitava de história de derrota em história de derrota. Pergunto-me como conseguia e contam-me que se alimentava de programas de televisão, que procurava inspiração nas novelas e que tinha como motivação o sobressair a todo o custo ou a custo nenhum. O que interessa é que reparassem nela.

 

Conspirava traições, desfalques, roubos e até a senhora do r/c dto., que se encontrava imobilizada numa cama devido aos seus 100 anos e a uma anca partida, foi acusada de fingir para se livrar da acusação do envenenamento do tiquinho, o gato do Senhor Manuel. Pobre senhora, não morreu da queda, morreu de desgosto de ver o seu nome difamado em praça pública.

 

Contaram-me também que esteve na origem do despedimento da mulher do senhor Engrácio quando, com voz sibilina, deu a entender que a desgraçada da senhora andava metida com o Anastácio do talho. Depois de uma não muita intensa investigação perceberam que o neto do farmacêutico nunca tinha seduzido a Juvenália e que a pobre da mulher tinha sido posta fora de casa sem motivo algum. A esta conclusão respondera Maria Etelvina com um “onde há fumo há fogo e essa nunca me enganou. Digam o que disserem essa nunca me enganou”. 

 

Nunca se enganava sobre os outros e era especialista sobre tudo, desde moda a comportamentos. Estava sempre a par das últimas tendências. Nada lhe escapava e estava atenta a tudo. Seguia-se por uma panóplia de verdades muito próprias e muito suas. Isenta de remorsos, preocupava-se mais com o parecer do que com o ser. Não perdoava um erro de moda e muito menos um erro de acção. Perante ela, as restantes más-línguas do bairro podiam entrar em um qualquer convento e não demorariam a ser canonizadas.

 

Foi hoje a enterrar Maria Etelvina dos Santos Ferreira, depois de ter sido encontrada em sua casa passado meses de ter tido um ataque cardíaco. Foi hoje a enterrar a Tininha Viperina como tantos lhe chamavam. No cemitério, estavam ela e o coveiro que veio de outra freguesia e a quem foi prometida uma protecção especial pelo pároco da comunidade. Foi descoberta, não pelo cheiro, mas apenas e somente pela ausência de conflito e pela paz que se tinha subitamente instalado na praceta das Flores. Temeram abrir-lhe as portas e, até, o velho capitão do posto pediu testemunhas, não fosse a Dona Tininha acusá-lo de tentativa de invasão de domicílio. Recusou-se o coveiro a enterra-la e o padre a falar no enterro.

 

Foi hoje a enterrar Maria Etelvina dos Santos Ferreira, mais conhecida por Tininha Viperina, que tanto jus fez ao nome. Respira-se de alívio na velha praceta. Faz-se um pacto de não falar no seu nome, nem tão pouco das suas acções. Não vale a pena falar do que não interessa, dizem os mais velhos e aplaudem os mais novos. Consta que os animais regressaram à rua e que as janelas se encheram de flores.

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