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Marta Leal

... aventuras e desventuras de uma eterna apaixonada pela vida, pela familia e pela profissão que desempenha ... Sou terapeuta de desenvolvimento pessoal, sou escritora, inspiradora e formadora

Marta Leal

... aventuras e desventuras de uma eterna apaixonada pela vida, pela familia e pela profissão que desempenha ... Sou terapeuta de desenvolvimento pessoal, sou escritora, inspiradora e formadora

Não tenho destino tenho apenas um caminho que quero fazer

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Lembraste do dia em que te disse que me sentia como tivesse morrido na praia? Lembras-te de como me senti ao ter que dar as últimas braçadas sozinha até alcançar a areia? Nesse dia tinha chegado à final do primeiro desafio e não tive com quem comemorar. Nesse dia em vez de festejar uma vitória limitei-me a chorar a solidão. Em vez de me sentir uma sobrevivente senti-me derrotada simplesmente porque olhei para o lado e não estavas lá. É o que acontece quando depositamos a nossa felicidade nos mãos dos outros, é o que acontece quando criamos expectativas sobre os outros. Hoje, passados todos estes anos, sei que não é justo. Não é justo colocar nas mãos dos outros aquilo que é e deve ser apenas nosso.

 

Não quero ser injusta contigo, não esqueci os momentos em que não me apetecia dar nem mais uma braçada e tu me incentivaste, não esqueci os momentos em que parei e foste tu que me deste força para continuar, não esqueci as vezes que me agarraste e me ajudas-te a nadar contra a maré, não esqueci as lutas que travamos juntos contra o mar revolto. Lembraste? Claro que sim, nem sei porque o pergunto. Foi uma viagem que era minha mas que tu até certo momento fizeste questão que se tornasse tua. 

 

Percebo agora que tenho estado sentada nessa praia sem dar valor ao que conquistei. Percebo agora que fiquei ali a incentivar, apoiar e a ouvir os que chegavam nas mesmas condições do que eu. Todos eles seguiram para as etapas seguintes e eu deixei-me ficar porque não queria continuar sem ti. Deixei-me ficar sem perceber que ficava. Achava que o passear pelo areal me bastava . Percebo agora que fiquei à tua espera não porque mo pediste mas porque era isso que eu queria fazer. Perdi a conta das vezes que me visitaste mas ao contrário do que eu sonhava nunca ficaste. Pensei sempre que não ficavas porque não podias mas hoje sei que não ficaste porque não querias. Nas nossas idades já só não podemos o que não queremos não é verdade?

 

As nossas vidas separam-se neste momento. É hoje que inicio o resto da minha caminhada. Vou sozinha consciente de que é assim que o tenho de fazer. Agora sei que esperei o tempo necessário para me recompor de um passado e poder caminhar consciente de um presente real com esperança no futuro que sonho vir a ter. Sei que nunca me vais ler porque escrevo-te no areal que um dia me acolheu. O mar vai-me servir de borracha assim que me afaste. Tenho como companhia o vento mas esse prometeu-me guardar segredo do que te escrevi e de todas as confidências que lhe fiz. Ao fundo, o sol nasce para se despedir, acenando-me como a incentivar-me.

 

A única bagagem que levo está no meu coração e na minha vontade. Neste momento é tudo o que preciso, neste momento é tudo o que quero. Olho mais uma vez para trás, recordo momentos, recordo palavras mas o que quero reter é este cenário que me apazigua e que me incentiva a iniciar a minha caminhada.  Sinto saudades antes de partir mas sei que é aqui que vou voltar sempre que a minha imaginação mo permitir.

 

Não tenho destino tenho apenas um caminho que pretendo fazer.

 

Marta Leal

Inspirational Coach

Neste Olimpo terreno reinam demasiados deuses

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Saber o que é melhor para os outros é para a maioria de nós muito fácil. São raros aqueles que não têm opinião para dar ou mesmo uma advertência para fazer. Saber o que é melhor para os outros é fácil. Demasiado fácil. Mas o que me leva a pensar que sei o que é melhor para o outro? O que me leva a pensar que a minha decisão sobre a vida do outro é a acertada? Quem me garante que a solução do outro não é melhor que a minha? E, será que eu tenho o direito de impor ao outro a minha decisão?

 

Brincar aos deuses. É isso que fazemos diariamente quando decidimos por e dispor, apontar, julgar e apresentar soluções que não nos foram pedidas. Endeusamos-nos suportados por experiências de vida, desenvolvimentos espirituais, conhecimentos xpto e partimos do principio que tudo sabemos e tudo podemos. Somos melhores que os outros. Somos deuses do conhecimento munidos de fórmulas mágicas.

 

 Neste Olimpo terreno reinam demasiados deuses que tudo sabem. Olham de soslaio para os maltrapilhos e rosnam aos que designam por ignorantes. Escondidos numa sabedoria redutora esquecem-se que ninguém é mais que ninguém. Que o autor pode ensinar a escrever livros mas que o calceteiro pode dar lições de como termos uma calçada bonita. Esquecem-se que o meu "eu" vê as coisas diferentes do teu "eu".  Que os efeitos de uma experiência seja ela qual for é diferente para todos que a vivenciam.

 

Não te endeuses. Quando te endeusas já deixaste de ser e começaste a parecer. Tem consciência que existem outros saberes, outros estares e outros "eus". Mantém-te atento. Atento ao outro mas como fonte de partilha, de conhecimento, de aprendizagem e não como marioneta. Sê humilde e reconhece que tudo o que sabes é muito pouco perante um universo tão vasto.

 

Lembra-te que estamos todos cá para aprender e para ensinar. Partir do pressuposto que só devemos aprender ou ensinar está errado. Está completamente errado!

 

Marta Leal

Inspirational Coach

 

 

Há dias assim.

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“Estou farta” dizia-me ela enquanto as lágrimas lhe caiam pelo rosto cansado. A nossa empatia e confiança já não necessitava de qualquer tipo de disfarce. “Chore à vontade, aqui toda a gente pode chorar” dissera-lhe eu na primeira vez em que nos cruzámos. Disse-lhe a ela e digo-o a toda a gente. Acredito que chorar nos lava a dor e a mágoa. É quase como se com cada lágrima saísse um pouco daquilo que nos magoa, entristece ou mesmo nos impede de agir. É como se cada lágrima nos libertasse do que nos precisamos de libertar.

 

Mil perdões porque me desviei daquilo que pretendia escrever. Comecei sem quase começar e perdi-me nas lágrimas. Perdi-me nas lágrimas dela mas podia-me ter perdido nas minhas ou mesmo nas suas caro leitor. Mas voltemos ao tema. Voltemos a um desabafo sentido de quem se farta de um dia-a-dia que teima em ser difícil. Voltemos a um desabado sofrido de quem sofre uma perda, uma desilusão ou mesmo derrota após derrota. É válido. É válido sentirmos que as forças se esgotam perante as adversidades, é válido implorar por dias de bonança em momentos de tempestade, é válido sentirmos que vale mais desistir do que continuar.

 

Há dias em que também eu estou farta. Há dias em que me apetece enfiar a cabeça na areia e esperar que tudo se resolva por si. Existem aqueles momentos em que também a mim me apetece chorar, mandar um berro, meter-me no primeiro avião e desaparecer para parte incerta. Nesses dias, permito-me embrulhar numa manta e agarrar-me a um qualquer livro, dos muitos que tenho espalhados pela casa. Nesses dias permito-me ganhar fôlego, respirar fundo e fazer o descanso do guerreiro, neste caso da guerreira.

 

Acredito que muitos estarão neste momento a perguntarem-se “Mas como é que uma life coach pode escrever o que eu acabei de escrever?” Porque essa life coach é humana e permite-se vivenciar, sentir, descobrir e aceitar que há dias assim. Existem simplesmente dias assim. Cansam-me os gritos incessantes de quem insiste em impedir lágrimas, momentos de paragem e até decisões. Cansam-me o culto aos super heróis num mundo que precisa de cada vez mais humanos. Cansam-me as mudanças forçadas e pouco integradas e cansam-me as fórmulas mágicas. Cansam-me, sobretudo, as fórmulas mágicas. 

 

Acredito que a magia da vida está na nossa individualidade enquanto seres especiais que somos. Acredito que essa individualidade se manifesta no que somos, pensamos, fazemos, sonhamos e vivenciamos. Chora o tempo que necessitares de chorar. Seca as lágrimas e define o caminho que queres para ti. Procura o que te serve e descarta o que não te faz sentido. Independentemente de tudo és tu que tens de decidir, descobrir e escolher. Ao teu ritmo. Nunca te esqueças que é ao teu ritmo.

 

 

Marta Leal

Inspirational Coach

Pediste-me para pintar.

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Pediste-me para pintar. Pediste-me para pintar um quadro para me conheceres melhor. Mas não sou pintor. Gostava de o fazer mas não consigo. Eu tentei garanto-te que tentei. Muni-me de telas, tintas e pincéis mas não consegui porque não sou pintor. Mas não quero deixar de realizar esse teu pedido. Por isso pinto-te um quadro de palavras não que seja escritor mas é só assim que o consigo fazer.

 

Imagina esta folha de papel como se fosse uma tela. O pincel são as letras, as palavras e as frases que se transformam numa mensagem. As cores imaginas no que eu te descrever e no final tens o quadro aquele que me pediste para pintar. Não sei se vais gostar, não sei se vais compreender, não sei sequer se me vais conhecer. Mas tenta entender que pinto-te a minha vida da única forma que consigo pintar.

 

Nasci num mundo colorido rodeado de amor, compreensão e carinho. Senti abraços vermelhos, sorrisos dourados e beijos cor de anil . Vi mares de azul claro, senti o amarelo do sol na minha pele, corri por campos verdes e brinquei em parques de todas as cores. Sonhei ser Bombeiro queria usar farda, entrar naqueles carros vermelhos e combater as chamas laranja dos fogos.

 

Fui crescendo sempre no meu mundo colorido mas as minhas cores foram-se esbatendo. Não sabia quem era, não sabia o que queria ser, só sabia que queria crescer. Vesti-me muitas vezes de preto porque era assim que me sentia. Já não queria abraços de cor nenhuma, já não queria que me beijassem, já não queria que me sorrissem. O meu mundo era negro porque eu não sabia quem era. Achava só que era crescido.

 

As cores voltaram quando me encontrei depois de me ter perdido. Tinha de me encontrar porque o meu mundo sempre foi colorido. Estudei em livros verdes, amarelos, azuis com imagens de todas as cores mas agora sei que o mais importante estava no preto e branco das palavras que me ensinaram. Vesti-me de verde esperança e rodeei-me de pessoas de todos os tons. Amei com o vermelho da paixão, tive sonhos cor de rosa, amizades coloridas  e até pensei que ia mudar o mundo.

 

Senti o azul do céu nos quatros cantos do mundo, vi o castanho da terra, maravilhei-me com o verde da floresta amazónica, impressionei-me com o branco dos pólos, percorri quilómetros a observar flores vermelhas, verdes, rosas, roxas e azuis. É verdade, vi e senti todas estas cores sem saber que as sentia.

 

Hoje penso com cor porque não consigo pensar de outra maneira. Sonho com um mundo como se fosse um vitral das igrejas que visitei. Sonho com um mundo coberto de branco de paz onde as pessoas se entendam em amizades sinceras e douradas. Sonho com um mundo onde o verde das fardas deixe de ser necessário. Sonho com um mundo onde o vermelho da paixão prevaleça. Sonho com um  mundo onde todos possamos plantar flores de todas as cores no coração uns dos outros. Sonho com um mundo onde não existam pensamentos cinzentos. Sonho com um mundo onde as vidas negras acabem. Sonho com um mundo onde as pessoas vivam com cor mas não se descriminem pela cor. Sonho com um mundo onde a cor do dinheiro deixe de ser mais importante do que a cor da amizade.

 

Agora fecha os olhos. Deixa que te leia tudo o que te escrevi. Ouve-me com calma e coloca na tela da tua imaginação as minhas palavras, pinta-as com as cores das tuas vivências, retoca-as com o que sentes, escolhe os tons que te fiz sentir escolher, cobre-as com os teus sonhos e acrescenta-lhe os teus desejos.

 

Consegues imaginar tudo o que senti e tudo o que vivi?  Esse é o meu quadro aquele que não soube pintar mas que escrevi para ti.

 

Marta Leal

Inspirational Coach

Quando o amor acaba!

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Quando uma relação termina é como se morresse um pedacinho de nós. Seja de quem deixa, seja de quem é deixado. Não é fácil. Não é fácil para nenhuma das partes a não ser que um deles seja um energúmeno do mais alto calibre. Mas não é sobre esses que hoje escrevo. Hoje escrevo sobre aqueles que um dia se apaixonaram e mais tarde percebem que já nada sentem. Hoje escrevo sobre aqueles que que um dia se apaixonaram e de repente o "viveram felizes para sempre" terminou com um "não és tu sou eu"!.
 
Meus caros dói. Dói que se farta e de nada adianta dizer que está tudo certo ou que vai passar. Nós sabemos que vai passar, que o tempo tudo cura e que lá à frente quem sabe até um dia chegamos a agradecer. Mas hoje dói pelo que foi e pelo que está a ser. Dói tanto no ser como no estar. Dói na partilha de bens quando antes se partilharam momentos, vivências, sorrisos, olhares, toques sorriso e mesmo lágrimas. Dói e é importante que doa.
 
É quase como se assistíssemos à morte inesperada de quem está por perto.Perceber o fim é perceber que a vida é feita de emoções, vivências e surpresas, muitas surpresas. Perceber o fim é perceber que temos que recomeçar tudo de novo mas de outro ponto de partida. De um ponto de partida em que escolhemos a bagagem que decidimos levar. De um ponto de partida onde escolhemos o que vamos deixar. Há quem fique lá no novo ponto de partida sem nunca querer mudar mas também não é desses que vamos falar. 
 
Existem momentos em que sentimos um misto de tristeza com alivio. Tristeza pela perda e alivio por voltar a controlar a coisa. Seria incongruente se não chorássemos uns dias pelos cantos e passássemos outros tantos a implicar com toda a gente. Ao quinto dia não ressuscitamos mas arregaçamos as mangas, tapamos as olheiras e regressamos ao mundo mais fortes e mais resistentes. Não mudamos no ser e no estar porque é exactamente assim que nos sentimos bem. E ninguém nos muda meus caros.Nós é que decidimos ou não mudar.
 
Quando te voltares a entregar, entrega-te. Da próxima vez que estiveres está. Claro que não vais viver a mesma coisa mas dá a ti a oportunidade de voltares a viver outro amor. Fugires do amor com medo de te magoares não é solução. Fugires do amor é impedires-te de viveres de novo.
 
Não chames nomes só porque achas que o deves fazer. Não te cales apenas porque não queres fazer cena. Pega na situação, olha-a de frente e resolve-a com o outro e contigo. Repara que escrevi com o outro e não com os outros. larga os outros,afasta-os no que diz respeito a soluções e aproxima-os no que diz respeito a compreensão. Os outros são os outros e vão sempre resolver de forma diferente.  
 
Acredito que o amor não tem amarras e que quando gostamos mesmo de alguém gostamos de o sentir bem e que seja feliz. Seria incongruente não lhe desejar felicidades por mais que isso doa e dói, dói que se farta.
 
Não acredites que só podes viver um grande amor. Acredita que podes viver muito mais amor se te permitires fazê-lo. Esquece os filmes, as opiniões, a sociedade e as crenças. Retira dos livros aquilo que te serve e vive. Mas antes chora, revolta-te, e aceita a tua desilusão.
 
A verdade é que um amor que não é regado seca, morre e corre o risco de deixar a terra infértil.  
A verdade é que só os mais corajosos se atrevem a amar.
 
Marta Leal
Inspiracional Coach

É o amor meu caro Arnaldo, é o amor.

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Podia ser uma noite diferente mas é apenas uma noite como tantas outras. Insistimos em fazer das nossas noites, noites iguais a tantas outras. Passamos pelas noites como passamos pela vida completamente indiferentes ao facto de que podemos fazer diferente, podemos sempre fazer diferente.

 

Soam as doze badaladas do relógio da igreja existente no bairro mais próximo. Em dias de lua cheia é fácil vê-lo nitidamente mas hoje o nevoeiro intenso e a chuva fazem-nos olhar para o local e imaginarmos apenas que continua lá. Chove como não chovia há meses. Lá fora ouvem-se passos que param constantemente, com toda a certeza, a desviarem-se das poças formadas pela chuva. É difícil caminhar entre o que um dia foram passeios e hoje é apenas um caminho onde as pedras da calçada foram furiosamente arrancadas, umas pelas intempéries outras por qualquer reacção humana que sem sombras de duvidas qualquer psicólogo explicaria como sendo a reacção natural a quem vive num ambiente onde a palavra de ordem é o ataque porque ninguém ousa esperar para se defender.

 

Ninguém ousa esperar para se defender porque ninguém resistiu á defesa. Consta até que nesta rua sem medo a palavra defesa não existe e é atribuída aos fracos e “mariquinhas”. Lamentavelmente ataca-se o que se deveria defender ou, melhor escrevendo, a melhor defesa é o ataque. Mas deixemos-nos de devaneios e adiante-se a história.

 

A avenida principal encontra-se deserta e o silêncio é apenas interrompido por um motor de um ou outro carro que passa rumo a uma das inúmeras ruelas que aqui se cruzam. Está escuro, está muito escuro. A iluminação pública existe mas os candeeiros que ainda possuem lâmpadas intactas são cada vez menos. O nevoeiro faz com que  não se consiga ver sequer o outro lado da rua. Estamos em Lisboa mas podíamos estar em Long Reach Road tal é o sombrio da noite e o fantasmagórico da neblina. É justamente assim que imagino as noites em que Jack o estripador atacava, é justamente assim que a minha imaginação desenha uma noite de crime e de violência.

 

Crenças apenas crenças até porque o cenário poderia virar neste preciso momento e entrarmos no mundo da paixão e do amor. Podíamos fazer com que um casal se cruzasse e se apaixonasse ou mesmo um reencontro entre mãe e filho que não se encontram há muitos anos. Se a nossa história muda num segundo porque não poderia esta mudar?

 

De vez enquanto ouvem-se gritos umas vezes mais perto outras mais longe. Vozes de actores de novelas, vozes de comentadores de futebol ou apenas vozes iradas de gente. Voz de quem se sente mal com o mundo e não percebe que a verdade é que se sente mal consigo próprio. São apenas as vozes de quem vive por aqui mas que a estas horas não se atreve sequer a vir colocar o lixo á rua. Lixo comum entenda-se. Porque reciclagem é coisa que não se conhece pelos meandros da Rua sem Nome.

 

Grafites, palavras de ordem, pinturas desbotadas ou descuidadas fazem parte das fachadas da grande maioria dos prédios de 3 andares que por aqui imperam.  São raros os andares que não possuem grades nas janelas, são raros os andares que não possuem varandas com armários e outro sem número de objectos de difícil definição. Há até quem alugue a varanda para sobreviver á crise ou à preguiça. Depende dos casos e das vontades meus caros. Trocam-se 10 m2 por 150 euros que sempre ajudam nos gastos. Privacidade não é preocupação porque é palavra que não se conhece. E vivemos bem sem aquilo que nunca tivemos.

 

Apesar da inexistência de espaços verdes por aqui conseguimos sentir o cheiro a terra molhada. No entanto, este é abafado pelo cheiro a lixo. Lixo que se vai espalhando pela rua fruto das lutas dos inúmeros escanzelados cães vadios que por aqui habitam e que aprenderam a lutar também eles pela sobrevivência. Aqui nem as sociedades protectoras dos animais se atrevem a entrar por muitas denúncias que existam. Esqueceram-se das pessoas porque não se esqueceriam dos animais?

 

Se caminharmos para lá do primeiro quarteirão e olharmos com atenção ali do lado direito encontra-se aquilo que foi um dia um parque infantil mas que hoje não passa de um aglomerado de ferros que põe em perigo não só crianças como adultos. Há uns tempos o Manel da taberna em noite de fogosidade com a Luisinha da retrosaria espetou um ferro não vou dizer onde porque este é um blog sério e, apanhou uma septicemia que o levou desta para melhor. É verdade, sim senhor, e se duvidam estejam á vontade para perguntar.

 

Se caminharmos pela avenida principal numa noite como esta sentimos cheiros de toda a espécie mas sentimos sobretudo o cheiro a medo. É um facto, cheira a Medo na rua sem nome.

 

Cheira não só a medo na rua sem nome mas também cheira a dor, desespero, falta de vontade e necessidade de sobrevivência. Por aqui, passeia-se pela dor como os outros passeiam pelas avenidas. Por aqu,i caminha-se na indiferença de uma vida onde os outros caminham na certeza. Por aqui, a maioria não vive porque não se atreve a viver. Por aqui, a maioria atreve-se apenas a tentar sobreviver porque atrever-se a viver não passa disso mesmo, um atrevimento.

 

Perderam-se sonhos em tempos passados e vestiram-se as capas do não vale a pena.  Se olhássemos com atenção e apesar da chuva e do nevoeiro conseguíamos ver um rosto á janela.  O rosto cansado de quem um dia se atreveu a sonhar mas que com o tempo aprendeu a viver o dia-a-dia. Rosto que demonstra ansiedade e dor, rosto que revela marcas deixadas por acontecimentos indescritíveis, rosto que um dia soube rir mas que com o passar do tempo se limita, de quando em vez, apenas a sorrir. 

 

Maria das Neves apertava o terço ao peito enquanto os seus lábios carnudos se moviam em ritmo acelerado entre avés marias e padres-nossos. Pode-nos faltar tudo desde que não nos falte a fé. Sempre fora, mesmo quando era mais nova, devota fervorosa de Nossa Senhora de Fátima, colocava nela toda as suas aflições, dúvidas e até desejos. Enquanto rezava não tirava os olhos da rua e a ladainha parava apenas  quando se apercebia de algum  movimento.

 

O cabelo completamente branco caia-lhe em desalinho pelo rosto enrugado e mal cuidado, fruto de uma vida de necessidades e de sacrifícios. Tinha sido uma mulher bonita, ainda hoje os seus olhos verdes chamavam a atenção onde quer que fosse. E, quem olhasse para ela nunca diria que era mãe de 5 filhos e muito menos imaginaria tudo aquilo por que passara  para os criar. Maria das Neves pertencia aquele grupo de mulheres com  idade indefinida onde por muito que nos esforcemos nunca conseguimos acertar nos anos de vida. Como os mais atrevidos costumavam dizer “uma mulher que metia muitas mais novas a um canto”.

 

Levantou-se do lugar onde estava ajeitando a bata já coçada que trazia vestida, calçou os chinelos e arrastou-se até à cozinha onde se encostou de novo à janela tentado perscrutar qualquer movimento, qualquer coisa que a fizesse sentir esperança.

 

Arnaldo das Neves não conseguia também ele dormir. Olhava para a mulher e pensava que um dia por amor a ele, ela tinha desistido de um sonho e de uma vida para se enfiar naquele buraco e viverem uma vida a dois. O amor que os unia foi sempre resistindo a todas as dificuldades mas ele sentia sempre o peso de um dia a ter conquistado. Amava-a como no primeiro dia e se havia coisa que sentia falta era da sua gargalhada, aquela que ela foi perdendo  e que um dia deixou de dar.

 

- Ele ainda não chegou?

- Não – respondeu ela sem sequer se voltar.

- Vem-te deitar, é tarde e sabes que o rapaz tem a mania de dormir em casa dos amigos.

- Eu sei Arnaldo, mas hoje estou com um pressentimento horrível e sabes como é.

- Sei . Coração de mãe não se engana.

 

Arnaldo olhou-a e sentiu que todos os dias a admirava mais. Como é que aquela mulher pequena e enfiada conseguia ter mais força que ele sempre que se tratava de defender a família? Como é que aquela mulher educada nos melhores colégios conseguira viver uma vida a dois num bairro daqueles onde nem os cães vadios se atrevem a vaguear e onde os habitantes não passam de meros pratos onde se pratica tiro ao alvo.

 

 É o amor meu caro Arnaldo, é o amor!

Ensina a amar num mundo que insiste em odiar.

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Há uns dias depois de um workshop de coaching parental uma mãe veio ter comigo e disse-me que não sabia se não seria egoísmo colocarmos crianças num mundo como este. Não será a primeira mãe nem a última a colocar esta questão, eu já a coloquei uma ou outra vez. Os acontecimentos diários perturbam-nos, as noticias trazem-nos revolta e a maldade humana faz-nos morrer por dentro. Percebermos que o ser humano é capaz das maiores atrocidades, faz-nos temer o pior, faz-nos viver na desconfiança e no medo quando o que era suposto era vivermos confiantes e no amor a nós e ao outro.

 

Para cada noticia que nos dá a volta ao estômago existe uma outra que nos faz sorrir, acreditar e pensar que vale a pena. Noticias que nos falam de pessoas boas, altruístas e de coração enorme.E quando falo de pessoas boas não me refiro à caridadezinha de cima para baixo. Falo sim do igual para igual. Daquele bom que não se acha superior mas que se consegue pôr no lugar do outro. Daquele que percebe que podia ser ele, ou eu ou mesmo tu.

 

Não te arrependas de trazeres filhos a este mundo. Educa-os com o coração. Ama-os. Dá-lhe abraços e atenção. Ensina-os a aceitar o outro na diferença. Sê um modelo de contribuição e vais ver que a pouco e pouco contribuis para um mundo melhor. Recusa-te a assobiar para o lado e manifesta-te mesmo que não seja contigo.

 

"Quando os nazis vieram buscar os comunistas,
eu fiquei em silêncio;
eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas,
eu fiquei em silêncio;
eu não era um social-democrata.

Quando eles vieram buscar os sindicalistas,
eu não disse nada;
eu não era um sindicalista.

Quando eles buscaram os judeus,
eu fiquei em silêncio;
eu não era um judeu.

Quando eles me vieram buscar,
já não havia ninguém que pudesse protestar." Martim Niemoller

 

 

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