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Marta Leal

... aventuras e desventuras de uma eterna apaixonada pela vida, pela familia e pela profissão que desempenha ... Sou terapeuta de desenvolvimento pessoal, sou escritora, inspiradora e formadora

Marta Leal

... aventuras e desventuras de uma eterna apaixonada pela vida, pela familia e pela profissão que desempenha ... Sou terapeuta de desenvolvimento pessoal, sou escritora, inspiradora e formadora

Estava a ver que tinha de cantar mais alto.

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A semana passada recebemos notícias do afilhado do Quénia e ficámos a conhecer melhor a história de alguém que não tinha ninguém. Poder ajudar a escrever uma história diferente na vida de alguém é uma sensação que dificilmente conseguirei colocar por palavras. Acredito, acredito mesmo que se cada um de nós fizer a sua parte o mundo poderá ser muito mas muito melhor.

 

Um dos meus objectivos para 2015 é ir todos os dias á caixa de correio e abrir as cartas que cheguem. Estamos a dia 22 e o objectivo está a ser cumprido. E perguntam vocês “então mas não é isso que é suposto fazer?” É sim senhor. Mas esta vossa amiga andou o ano de 2014 armada em vidente olhava para as cartas e dizia "ah! isso deve ser isto ou aquilo". Por muito que o mais que tudo insistisse a resposta era sempre a mesma “ah! isso deve se publicidade, a factura ou publicidade” o resultado das minhas premonições foram vários avisos de corte e algumas contas em atraso.  Toma-se a decisão e muda-se o padrão.

 

Quem, afinal, não mudou o padrão foi o mais que tudo que ontem pela manhã bem cedinho, enquanto eu cantarolava a loja do Mestre André, passou por mim a arrastar-se e me disse “se não te calas corto-te as pestanas”. Eu sabia, eu sabia que o mais que tudo não conseguia ficar calado! Estava a ver que tinha de cantar mais alto.

 

 

Uma no Cravo outra na Ferradura

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Dona Rosa vivia num constante vai e vem. Casada com o Senhor Caule e mãe de cinco Ervinhas e dois Botões não tinha mãos a medir. Para acrescentar a todas as tarefas que a vida doméstica a sujeitava era Presidente da Associação de Pais da Escola EB+3 do Agrupamento Mais Que Florido e membro fundador, juntamente com a Dona Centáurea, do Clube Dos Jardins Unidos. Senhora da sociedade com forte influência na opinião pública ainda fazia virar uns certos caules sempre que descia, com ar imponente, a famosa Rua dos Flores.

 

Não será, portanto, de estranhar que tenha sido ela a primeira a ligar para todos a informar das novidades e a convocar uma reunião para se resolver a questão. Bom, eu quase que me atrevia a dizer que convocar não foi bem o que aconteceu. O que a Dona Rosa fez foi gritar e esbracejar enquanto dizia que tinham de vir, tinham mesmo de vir.

 

Foi de tal forma que a Margarida, casada com o Crisântemo, na pressa de se despachar perdeu uma quantidade de pétalas, o Girassol irou-se com a Gerbera, o Antúrio perdeu metade da cor e o Lírio bamboleava-se rua acima numa velocidade que ninguém pensou ser possível.

 

Todos especulavam mas ninguém sabia o que passava. Uns diziam que a Dona Rosa ia apresentar a sua candidatura à Presidência enquanto outros afirmavam a pés juntos que aquele encontro era por causa da organização do baile das flores. As vozes começaram a levantar-se e só se fez silêncio quando Dona Rosa, seguida pelo tímido Senhor Caule, entrou na sala.

 

- Meus caros é o drama e o horror é a tragédia da Rua das Flores, começou ela por dizer enquanto as suas pétalas ruborizavam.

 

O burburinho aumentou e o tom colorido do bouquet empalideceu. O que seria assim de tão importante?

 

- A razão pela qual vos convoquei é o Senhor Cravo.

 

- O Senhor Cravo não está – disse, timidamente, uma das ervinhas.

 

- Claro que não está cá - indignou-se a Dona Rosa - Meus senhores o senhor Cravo tem de ser banido da nossa rua.

 

O silêncio foi revelador do espanto que aquelas palavras causaram. Do espanto e do medo. Era mais que sabido que as relações entre a Dona Rosa e o Senhor Cravo nunca mais foram as mesmas quando ele, muito dado a revoluções, a abandonou no altar para ir lutar pelos seus ideais. Mas todos gostavam do Cravo, homem letrado e bonacheirão tinha sempre uma palavra a dizer aos que dela necessitavam. Parecia que adivinhava, costumava dizer a Tulipa, parecia que adivinhava.

 

Depois de muita discussão e de muita hesitação a Dona Rosa lá revelou o porquê de tal decisão. Parece que o cravo se tinha apaixonado por uma ferradura e a trouxera para casa. Ora a Dona Rosa era muito pouco dada á diversidade defendia que as flores só se devem relacionar com as flores. Alem de mais constava que as ferraduras comiam flores e se transformavam em jardineiros cegos durante a noite. Alheios a estas afirmações havia os que afirmavam que tínhamos de ter uma mente mais aberta, que mal tinha o Cravo casar com a Ferradura?

 

Como os meus caros leitores já devem ter percebido foi um burburinho uns a favor do Cravo outros contra á Ferradura. Fizeram-se manifestações coloridas, debates televisivos e escreveram-se rios de tinta enquanto muitas pétalas foram arrancadas. Uns eram contra, outros eram a favor e outros mais indefinidos, iam dando uma no Cravo e outra na Ferradura. Que segundo consta, indiferentes a tudo isto, mudaram-se para o velho palacete onde vivem felizes, esperamos que para sempre.

Betty Boop

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Pessoal, agora muito a sério, lá porque sou coach não quer dizer que não erre, que não me irrite, que não tenha duvidas, que não tenha medos ou mesmo que, por vezes, não bloqueie. A minha profissão não faz de mim um ser desprovido de sentimentos e emoções. No dia em que isso acontecer, mudo de profissão e, quem sabe, de vida.

 

A poucos dias de uma viagem de férias constato que ainda não fiz a mala nem tão pouco pensei naquilo que irei levar. Vale-nos o facto de saber para onde vou e o que está previsto visitar. A minha preocupação, no pouco tempo que tenho tido, foi cuidar das garras e compor as pestanas até porque, meus caros, aqui que o mais que tudo não nos ouve, tenho muita esperança de me cruzar com o George, o tal da máquina de café.

 

Mais compostinha e pestanuda, ainda estou a recuperar do silêncio do mais que tudo. Acreditem ou não, é primeira vez que o dito cujo não comenta o meu olhar Betty Boop. Ou respondi muito torto da última vez ou mudou de estratégia. Nada como uma quebra de padrão para me por de antenas no ar, a verdade é essa.

Folhado de Pato

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José Ricardo, também conhecido como Folhado de Pato, vivia na velha Rua do Almada, de onde nunca tinha saído. Ali nascera e ali ficara, como fazia questão de afirmar sempre que alguém lhe perguntava onde morava. Nunca aquele homem dormiu uma noite fora de casa, nem mesmo aquando da sua lua-de-mel, por muito que os seus pais tivessem insistido. Contam os que assistiram que as suas palavras foram “daqui não saio daqui ninguém me tira”. Não saíram os noivos, saíram os pais do noivo, para não se sujeitaram aos sons de ruídos e gemidos que estão associados a uma noite de núpcias.

 

Dizem as más-línguas que mais valia terem por lá ficado porque José Ricardo, homem de hábitos e de rotinas, limitou-se a fazer o que fazia sempre aos sábados à noite, assistir à programação da RTP1 até aparecer a mira técnica. Há até quem diga que a Dona Felisberta, sua esposa, só teve direito a aconchego uns bons meses depois de casados. É que, a dada altura, o café para onde ia todas as quartas-feiras fechou, e José Ricardo conseguiu, finalmente, encaixar a suas obrigações de homem numa rotina já por si tão intensa. Consta que a partir desse dia a Dona Felisberta se tornou mais sorridente. Não sei se é verdade mas foi o que me constou.

 

Tinha uma resistência atroz à mudança. Que o digam a Senhora Dona Felismina, sua mãe e, mais tarde, a Senhora Dona Felisberta. Não podia haver qualquer alteração lá por casa que Folhado de Pato a sentia, fosse na figura de um detergente que era usado para lavar a roupa, fosse num novo condimento que alguma das duas se atrevesse a colocar nas refeições, que, como não é estranho perceber, tinham que estar à hora exacta da mesa. Não se limitava a viver na mesma casa desde que nascera. Convém salientar que vivia rodeado dos mesmos objectos, dos mesmos cheiros e dos mesmos sons a que sempre se acostumara.

 

Homem elegante e de um certo galanteio, todos os dias passava na pastelaria que ficava ao lado da repartição de finanças onde era tesoureiro e pedia um folhado de pato, coisa luxuosa para a época. Isto fez com que todos o conhecessem por Folhado de Pato ou Filhado de Pato como dizia a Menina Anita, filha dos patrões, que tinha um problema de dicção. 

 

Ninguém deu por nada nem nunca ninguém sonhou que o que aconteceu pudesse acontecer. Ainda existem, na velha Rua do Almada, pessoas a quem dói o maxilar por, passado tanto tempo, ainda se encontrarem de boca aberta, tal foi o espanto ao saberem do acontecido. A si, meu caro leitor, peço que se sente e que controle o seu maxilar, não lhe vá acontecer o mesmo que aconteceu aos outros.

 

José Ricardo embeiçou-se pela dicção da menina Anita, moça casadoira e com metade da sua idade, pediu transferência para Freixo de Espada a Cinta, e lá foram os dois numa noite de nevoeiro, tal qual D. sebastião, não para salvarem o país mas para se salvarem do tareão a que se podiam sujeitar se o Senhor António, pai da menina Anita, os apanhasse.

 

Felisberta mulher pouco habituada à fogosidade de uma relação, ainda pensou enveredar pelo caminho da fé. Valeu-lhe o encosto do Manuel da Frutaria e o roçar de mão do Etelvino, dono do talho, para perceber que se calhar ainda tinha muito para viver.

Não vos posso garantir a veracidade dos factos mas foi o que me constou.

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Esta semana chegou a primeira carta do nosso afilhado do Quénia. Fantástico quando percebemos que podemos fazer a diferença na vida de alguém que é filho de ninguém. Há uns anos queria mudar o mundo hoje percebo que só consigo fazer a diferença na vida de alguns. Somos muitos, somos tantos que se todos fizéssemos a nossa parte o mundo seria tão diferente.

 

Parece que a filha, a do meio, lançou a bomba da decisão de se tornar vegetariana no almoço com os avós. Pelo que consta a outra filha, a mais nova, entrou em pânico resmungando e rosnando que se recusava a deixar de comer carne. A avó, minha mãe, e também gestora de recursos resmungava e bradava que já não podia cozinhar para a neta. O avô, que também é meu pai e algumas vezes motorista das netas, apoiou a filha mais nova. Parece que quem acalmou as hostes foi a líder da limpeza que se disponibilizou logo a passar umas receitas para que a ordem fosse reposta. Não vos posso garantir a veracidade dos factos mas foi o que me constou.

 

O que eles não sabem é que eu, a mãe, ando a pensar seriamente em fazer o mesmo. Desde que me pus a ver filmes e a ler estudos sobre os quais ouvi o filho falar torna-se cada vez mais desafiante comer carne. Sim meus queridos filhos aqui, como em tudo o resto, pode parecer que estou distraída, mas estou atenta, muito atenta.

 

Já estou a ver os títulos dos jornais e das notícias das redes sociais: O mundo está a mudar - primeiro foi o Manzarra agora é a Marta Leal. E claro todas as noticias acompanhadas de comentário uns contra outros a favor, pelo meio teremos pessoas a ofenderem-se e outras a apaziguar. No final já ninguém se lembrará do que deu origem à discussão mas isso também não interessa nada. 

O que interessa é  que estou quase de partida de férias e ainda tenho muito que dar ao dedo ou se preferirem ao teclado.

Um dia hei-de morar numa estante

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 - Ali? – perguntou  a mãe.

- Sim ali … quando for grande quero morar na minha estante com os meus amigos

- E em qual das casas?

- Em todas. Quero ser livre como o Peter Pan e a Sininho e voar de livro em livro a visitar todos os meus amigos.

- E deixas que eu te visite?

- Claro mamã, tomas uma poção mágica para poderes encolher e podes até viver comigo. Mas só quando eu for grande. Sabes, as crianças não podem morar sozinhas.

 

As palavras ecoavam na sua cabeça enquanto vagueava pela casa vazia. Pensamentos tão bons que a faziam sorrir e sentir-se novamente amada. Sentia os cheiros do que lhe fora tão familiar. Ouvia a voz do pai e via o sorriso da mãe. Sentia a brisa que a presença da avó sempre provocara por ali. Pouco restava de um tempo onde não havia tempo. Pouco restava de um tempo onde não haviam impedimentos.

 

Passava os dedos pela estante, aquela onde um dia tinha querido morar e perguntava-se para onde tinham ido os seus sonhos. Para onde tinha ido o seu amor ás letras e aos livros. Para onde tinham ido o seu acreditar e o seu sentir. Passara rápido, passara tudo muito rápido. Num momento sonhava com letras e rebolava com a mãe no chão do quarto, e noutro momento era responsável pelo maior escritório de advogados de Londres. Passara das letras para as leis apenas porque sim. Por muito que se perguntasse não se lembrava sequer do momento em que decidira abraçar a lei. Essa lei que em nome da liberdade a deixara privada de ser quem era. Do desejo de morar numa estante passara á certeza de morar numa vitrina. As suas roupas ditavam a moda, as suas atitudes ditavam os valores e os costumes e as suas decisões eram analisadas ao pormenor. Saudades, muitas saudades do tempo em que o sonho era morar numa estante.

 

- Dra. Santana desculpe, desculpe, desculpe!!!! Acabei de ligar para a agência a passar-lhes um atestado de incompetência. Onde já se viu? Onde estavam com a cabeça? Pensarem sequer que estaria interessada nessa espelunca. Uma senhora com a sua importância interessada nesta casa. Que me chovam canivetes em cima se isso alguma vez é possível.

 

Íris olhava-o divertida. Ricardo era seu assistente há uns bons anos. Primava pela competência e pelo exagero que sabia combinar na perfeição.

 

- Cuidado com o que deseja, meu querido tenha muito cuidado com o que deseja.

Frases de Engate e Assuntos domésticos

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Hoje pela manhã recebi a seguinte mensagem” é oficial, uma sessão de coaching com a Marta é mais potente que a cafeína de dois ou três cafés.” À gargalhada que dei inicialmente juntou-se a certeza de que quando fazemos aquilo que nos faz sentido os resultados só podem ser positivos. Gosto. Gosto da capacidade que o ser humano tem em mudar, avançar e melhorar enquanto pessoa. Gosto, sobretudo, de transformar lágrimas em sorrisos.

 

Gosto de transformar lágrimas em sorrisos mas também não tenho qualquer problema em transformar ilusão em desilusão.  Faça-se um parênteses para que os mais distraídos se situem. Cá por casa temos a mãe, a filha do meio, a filha mais nova, o mais que tudo, o filho mais velho que nos visita de vez enquanto, a o gato que afinal não era gata e a gata que gosta de tudo menos de pessoas. Temos também a avó gestora dos recursos e o avô que também é motorista das netas a eles soma-se a líder da limpeza que nos visita uma vez por semana. Desenganem-se, portanto, os machos latinos deste mundo porque aceitar-vos na página do FB ou responder a comentários de forma educada não significa que vos ache graça ou queira enveredar pelo caminho da sedução é apenas por questões profissionais. Bom, dizer que são machos latinos do mundo é esticar-me um bocadinho mas gaja que é criativa coloca sempre um floreado na equação. Questiono-me, no entanto, se as frases de engate utilizadas têm algum tipo de resultados. Palavra, tenho mesmo curiosidade em saber.

 

Passa-se do engate a assuntos domésticos e informa-se que cá por casa os banhos retomaram a normalidade e o duche substituiu o alguidar que tanta companhia nos fez. O esquentador sofreu intervenção cirúrgica e voltou, passados uns euros, como novo. Pelo menos assim o espero. No entanto, sinto falta. Sinto falta da dinâmica familiar e das conversas enquanto se ligava o jarro eléctrico e se aqueciam as panelas de água. Tenho saudades das provas de amor, do mais que tudo, em forma de alguidares de água quente. Mas deixemos-nos de lamechices e passe-se á pratica até porque pragmatismo é coisa que não me falta e só tenho uma semana antes de ir de férias.

Cruza-te comigo esta noite!!!

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Gosto da forma como se cruzam comigo durante a noite. Não percebo os que não gostam da noite. Aflige-me os que a temem e estigmatizam denominando-a de perigosa. O único perigo que a noite tem é o perigo de se tornar dia. Não entendo os que se recusam a vive-la apenas porque é assim e sempre será. Quem disse?

 

Não. Não pensem que me perdi mais uma vez no pensamento e que me deixei levar pelo encantamento das letras. Falo da noite consciente de que falo. Falo da noite porque é nela que me gosto de cruzar com elas.

 

Na noite espelha-se a magia escondida pela luz do sol. Os pensamentos secretos que brilham apenas nas estrelas. A noite é misteriosa. Já vos disse que gosto de mistério? Gosto do mistério de uma noite escura. Gosto de um beijo dado ao luar, de uma abraço apertado em noite de nevoeiro.

 

Agora sim perdi-me na magia da noite e deixei-me levar pelas letras. Viajei ao momento do tempo sem tempo que as noites me transmitem porque é na noite que me gosto de cruzar com elas. Gosto da companhia das estrelas. Gosto da forma como se cruzam comigo e da paz que me transmitem. Fantástica a forma como brilham cada uma á sua maneira. Fantástico como são todas iguais e todas diferentes.

 

Na noite chamam por mim num brilhar constante que diz: cruza-te comigo esta noite!!!

O Mundo dos lápis afiados

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João entrou no sótão certificando-se que ninguém o seguia, e deu duas voltas à chave. Retirou a caixinha que estava por debaixo de uma tábua solta e abriu-a. Tinha feito uma promessa e era hoje o dia em que a iria cumprir. Aqueles pequenos seres dependiam dele e não os podia desiludir.Lá dentro os pequenos lápis afiados começaram a espreguiçar-se e a saírem das suas caminhas de aparas. O lápis vermelho atreveu-se a protestar contra quem os tinha acordado e não fosse o lápis branco ter mantido a calma eu acho que ele teria dito um palavrão daqueles muito feios e que os meninos não devem dizer.

 

A caixa encheu-se de sorrisos quando perceberam que era o João. No dia anterior tinha sido ele que os salvara do monstro Senhor Afia. Foram momentos de grande aflição. O Senhor Afia obcecado por lhes fazer um bico invejável e eles a fugir cada um para seu lado.A pequena lápis rosa sofrera danos irreparáveis e quem a visse percebia que tinha estado a choramingar a noite toda. O pequeno lápis preto continuava igual a si mesmo carrancudo e de sobrolho carregado e não fosse a alegria do lápis laranja podíamos dizer que aquele pequeno grupo tinha desistido de lutar. Valia-lhes o esperançoso lápis verde que ansiava pela data de partida.

 

O Monstro das Afias afiava afincadamente e eles iam ficando cada vez mais pequenos. Isto significava que tinham de regressar ao Mundo dos lápis afiados antes que o pior acontecesse. Se os lápis mais pequenos não regressassem ao seu país o mundo dos lápis de  cores acabaria por desaparecer. Os meninos do planeta deixariam de poder pintar e colorir e todos os seus desenhos desapareceriam. Em lugar de todos os desenhos coloridos restariam apenas folhas de papel brancas sem nada registado.

 

João espreitou pela janela do sótão e viu ao fundo o Monstro das Afias a gritar com o pequeno exército. Barafustava, gesticulava e dava ordens enquanto as pequenas afias coloridas pareciam autênticas baratas tontas de tanto que corriam de um lado para o outro. O João conseguia ver tudo e começou a traçar um plano na sua mente. Dividiu os lápis por cores formando pequenos exércitos. Na frente ia o exército branco que se esgueirava por entre os malmequeres, o exército amarelo misturou-se com os girassóis, o vermelho com os cravos e assim calmamente foram avançando cada um para a sua flor onde se confundiam com a cor. E foi quando a pequena lápis rosa não conseguiu aguentar mais e soltou um gritinho depois de ter tropeçado no molenga do lápis azul.

 

O Monstro das Afias atento gritava ordens em todas as direcções. As afias corriam de um lado para o outro, as aparas soltaram-se em nuvens e tentavam cobrir os pequenos lápis que corriam cada vez mais depressa em direcção ao portão do Mundo dos Lápis Afiados. Enquanto as aparas confundiam as afias os lápis aproximavam-se cada vez mais do portão e foi então que se ouviu um rugido e do nada surgiu o Grande Monstro Afia que se colocou mesmo em frente ao portão impedindo os pequenos lápis afiados de conseguirem entrar. 

 

E foi quando o João piscou o olho aos amigos lápis, fez uma vénia aos Reis do Mundo dos Lápis Afiados e simplesmente guardou o Monstro das Afias no Bolso dos calções.  Os pequenos lápis correram para o seu Mundo e assim que entraram ouviam-se canções de alegria.

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